SÃO JORGE. CINEMA COM LETRA GRANDE EM TODOS OS FRAMES
CHEGOU esta semana a 26 salas este
filme que Macau já conhece. É o vencedor do 1º festival internacional de Macau
e, ao seu protagonista, foi atribuído o galardão para o melhor ator, no
reconhecido festival internacional de cinema de Veneza, festival classe A,
entre outros prémios em outros festivais.
O mundo é sempre a matéria dos filmes, mas
há filmes em que essa fala se agiganta, nesse continuo de imagem em movimento
em que o espaço e o tempo, a vida, mais do representação mimética do real se
tornam o próprio real. No caso, revelando a profunda e heterodoxa devassidão da
alegria natural dos corpos, o esforço imenso dos indivíduos neste contínuo
esbracejar para a permanência do ato de
respirar, manter a cabeça fora de água, neste corpo e tempo social de dinâmicas
submetidas ao ritmo da batuta das leis do mercado, o grande deus do
contemporâneo, e único chefe de orquestra.
SÃO JORGE, é um filme maior de um
realizador que afirma o cinema como lugar da visibilidade do mundo.
Filme belo e duro, expressão
profunda das dinâmicas sociais da multidão em contínua luta pela permanência na
vida, materializada através da história
do Jorge, o herói moderno, isto é, o anti-herói, aquele que entra em movimento
não por decisão da sua vontade, mas porque as condições sociais, contextuais,
em que submerge lhe impõem o movimento. SÃO JORGE, é cinema de um realizador que conhece o mundo e o cinema no mundo.
O espaço, o “em campo”, é central na
construção dos filmes, ou pelo menos para a grande generalidade deles. No caso é.
O trabalho de escolha dos décores é
notável, trás ao ecrã os territórios das cidades invisíveis, não com o olhar
decorativo do género telenovela, mas com o olhar do cinema, enquanto matéria cinematográfica, temática e
estética, unidade espacial capaz da produção de sentido. A direção de arte e o
guarda roupa é irrepreensível, bem como cabelos e maquilhagem. É o que no
cinema não há pormenores a mais nem a menos.
O trabalho de camera, a luz, é
igualmente notável.
O realizador conduz-nos com o seu
personagem Jorge, pelos territórios da sobrevivência do amor e da dignidade a
esforço de sangue, de morte, de dor. À guerra calada das multidões que nas
horas antes do amanhecer limpam os escritórios dos edifícios luminosos de
paredes de vidro. E também à luta dos que ousam o prazer do luxo da estética
dos sabores e que sucumbem perante os compromissos do crédito. É o caso do
cozinheiro patrão no restaurante de luxo, representado com grande maturidade,
de forma empenhada e brilhante, pelo ator Gonçalo Waddington.
Leva-nos com a vida do Jorge, um
branco num bairro social onde a maioria étnica tem ancestralidade em África, no
Brasil mestiço e nas novas migrações de leste. Um bairro que é uma comunidade
de sobreviventes, que apreendem e sentem o mundo com a sua experiencia e o que
as televisões transmitem, onde não há tempo para queixas e a dor tem de ser
engolida a seco.
Dar socos e conseguir encaixa-los é
a grande arte que pode permitir a claridade desejado lá mais à frente, um à
frente sempre longe, mas ainda assim pelo qual se continua a correr, a
caminhar, a sofrer, na tentativa de não sentir a condição da humilhação
instalada nas paredes das casas inacabadas, em que os tijolos são nervosos
ásperos cobertos a graffies.
Jorge tem um filho, o Nelson, a
ternura, o amor que envolve a relação dos dois é de uma beleza extrema,
profundamente humana, imensamente comovente. Vive com ele no acanhado quarto
onde os seus troféus de boxe tem o valor das estátuas dos santos das igrejas,
são imagens ícones. O quarto fica no pequeno apartamento dos seus pais, são
muitos os que por ali habitam.
A casa da família do Jorge é uma
versão contemporânea e suburbana desse outro filme enorme, “feios porcos e
maus”, do Ettore Scola, produção de 1976. Mas o Marco Martins não tem a família
como o núcleo da narrativa, é um dado, um contexto, mas não é o objecto do
filme. É o Jorge e o seu mundo quem, ao longo de todo o filme, a camera segue,
acompanha, por vezes antecipa.
Susana, a mulher que é a mãe do
Nelson, é uma emigrante Brasileira que saiu da casa dos pais do Jorge por não
aguentar a forma como era tratada, mal tratada. Susana e Nelson, são interpretações de enorme sensibilidade e
equilíbrio.
Susana quer-se afastar de tudo. Tem
como projecto regressar ao Brasil com o filho de ambos. Jorge consegue dinheiro
para alugar uma casa, só dessa forma será possível ter o filho e Susana
consigo.
Este é um filme que caracteriza bem
o modelo atual de produção cinema independente. Filme híbrido, em que o
documentário e a ficção estão presentes na mesma narrativa, com atores e
não-atores - personagens que se representam a si mesmos
na narrativa - e no qual, a discussão
cinema arte cinema comercial, não se coloca, está ultrapassada logo à
partida. É cinema ponto.
Filme a todos os níveis de análise
notável. A ante-estreia na Cinemateca teve duas sessões na sala Félix Ribeiro,
dado que muitos, como foi o meu caso, não quiseram adiar o encontro com o filme
na sala escura das revelações da materialidade do mundo.
A não perder.
País : Portugal.
Ano de produção: 2016. Realizador: Marco Martins. Duração: 1h52m

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