terça-feira, 16 de maio de 2017

SÃO JORGE. CINEMA COM LETRA GRANDE EM TODOS OS FRAMES

SÃO JORGE. CINEMA COM LETRA GRANDE EM TODOS OS FRAMES

            CHEGOU esta semana a 26 salas este filme que Macau já conhece. É o vencedor do 1º festival internacional de Macau e, ao seu protagonista, foi atribuído o galardão para o melhor ator, no reconhecido festival internacional de cinema de Veneza, festival classe A, entre outros prémios em outros festivais. 






           O mundo é sempre a matéria dos filmes, mas há filmes em que essa fala se agiganta, nesse continuo de imagem em movimento em que o espaço e o tempo, a vida, mais do representação mimética do real se tornam o próprio real. No caso, revelando a profunda e heterodoxa devassidão da alegria natural dos corpos, o esforço imenso dos indivíduos neste contínuo esbracejar para a permanência do ato  de respirar, manter a cabeça fora de água, neste corpo e tempo social de dinâmicas submetidas ao ritmo da batuta das leis do mercado, o grande deus do contemporâneo, e único chefe de orquestra.
             SÃO JORGE, é um filme maior  de um  realizador que afirma o cinema como lugar da visibilidade do mundo.
            Filme belo e duro, expressão profunda das dinâmicas sociais da multidão em contínua luta pela permanência na vida,  materializada através da história do Jorge, o herói moderno, isto é, o anti-herói, aquele que entra em movimento não por decisão da sua vontade, mas porque as condições sociais, contextuais, em que submerge lhe impõem o movimento. SÃO JORGE, é cinema  de um  realizador que conhece  o mundo e o cinema no mundo.
           
            O espaço, o “em campo”, é central na construção dos filmes, ou pelo menos para a grande generalidade deles. No caso é. O trabalho de escolha dos décores é notável, trás ao ecrã os territórios das cidades invisíveis, não com o olhar decorativo do género telenovela, mas com o olhar do cinema,  enquanto matéria cinematográfica, temática e estética, unidade espacial capaz da produção de sentido. A direção de arte e o guarda roupa é irrepreensível, bem como cabelos e maquilhagem. É o que no cinema não há pormenores a mais nem a menos.
            O trabalho de camera, a luz, é igualmente notável. 
            O realizador conduz-nos com o seu personagem Jorge, pelos territórios da sobrevivência do amor e da dignidade a esforço de sangue, de morte, de dor. À guerra calada das multidões que nas horas antes do amanhecer limpam os escritórios dos edifícios luminosos de paredes de vidro. E também à luta dos que ousam o prazer do luxo da estética dos sabores e que sucumbem perante os compromissos do crédito. É o caso do cozinheiro patrão no restaurante de luxo, representado com grande maturidade, de forma empenhada e brilhante, pelo ator Gonçalo Waddington.
            Leva-nos com a vida do Jorge, um branco num bairro social onde a maioria étnica tem ancestralidade em África, no Brasil mestiço e nas novas migrações de leste. Um bairro que é uma comunidade de sobreviventes, que apreendem e sentem o mundo com a sua experiencia e o que as televisões transmitem, onde não há tempo para queixas e a dor tem de ser engolida a seco. 
            Dar socos e conseguir encaixa-los é a grande arte que pode permitir a claridade desejado lá mais à frente, um à frente sempre longe, mas ainda assim pelo qual se continua a correr, a caminhar, a sofrer, na tentativa de não sentir a condição da humilhação instalada nas paredes das casas inacabadas, em que os tijolos são  nervosos  ásperos cobertos a graffies.

            Jorge tem um filho, o Nelson, a ternura, o amor que envolve a relação dos dois é de uma beleza extrema, profundamente humana, imensamente comovente. Vive com ele no acanhado quarto onde os seus troféus de boxe tem o valor das estátuas dos santos das igrejas, são imagens ícones. O quarto fica no pequeno apartamento dos seus pais, são muitos os que por ali habitam.
            A casa da família do Jorge é uma versão contemporânea e suburbana desse outro filme enorme, “feios porcos e maus”, do Ettore Scola, produção de 1976. Mas o Marco Martins não tem a família como o núcleo da narrativa, é um dado, um contexto, mas não é o objecto do filme. É o Jorge e o seu mundo quem, ao longo de todo o filme, a camera segue, acompanha, por vezes antecipa.
            Susana, a mulher que é a mãe do Nelson, é uma emigrante Brasileira que saiu da casa dos pais do Jorge por não aguentar a forma como era tratada, mal tratada. Susana e Nelson, são  interpretações de enorme sensibilidade e equilíbrio.
            Susana quer-se afastar de tudo. Tem como projecto regressar ao Brasil com o filho de ambos. Jorge consegue dinheiro para alugar uma casa, só dessa forma será possível ter o filho e Susana consigo.
            Este é um filme que caracteriza bem o modelo atual de produção cinema independente. Filme híbrido, em que o documentário e a ficção estão presentes na mesma narrativa, com atores e não-atores  -   personagens que se representam a si mesmos na narrativa -  e no qual, a discussão cinema arte cinema comercial, não se coloca, está ultrapassada logo à partida.  É cinema ponto.
            Filme a todos os níveis de análise notável. A ante-estreia na Cinemateca teve duas sessões na sala Félix Ribeiro, dado que muitos, como foi o meu caso, não quiseram adiar o encontro com o filme na sala escura das revelações da materialidade do mundo.
            A não perder.

País :  Portugal.  Ano de produção: 2016. Realizador: Marco Martins. Duração: 1h52m  

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