terça-feira, 16 de maio de 2017

O DIVÃ DE ESTALINE

O DIVÃ DE ESTALINE

            A 26 de janeiro, em Portugal, chegou à exibição em sala “LE DIVAN DE STALINE”, o mais recente filme da atriz/realizadora Fanny Ardant.
             A obra resulta da adaptação cinematográfica de um romance de Jean-Daniel Baltassat, e tem como protagonista Gérard Depardieu. É a terceira longa metragem realizada da realizadora e teve estreia mundial no Lisbon & Estoril Film Festival. O primeiro filme, em 2009, CENDRESS ET SANG , fez parte da seleção oficial de Cannes – fora de competição, do mesmo ano. O filme está em exibição em França também.
            A luz e a sombra é o lugar onde o filme se instala, mesmo sendo a fotografia do Renaud Personnaz e Renato Berta, a cores, e notável, convém dizer.
            O acesso ao intimo que somos, ler o que mostram os sonhos, os desejos, ter acesso à caixa de pandora que cada um de nós é, foi a proposta revolucionaria que Sigismund Freud com a sua nova teoria da psicanálise e do inconsciente, lançou no mundo a partir de Viena em 1900. Staline chamava-o de charlatão. Objectivamente,  confrontava-se com essa figura referencial na procura do conhecimento do homem de si mesmo. A capacidade de olhar-se no espelho, de procurar e decifrar imagens inscritas no não visível da imagem reflectida.
             O filme procura uma resposta à pergunta, Staline, quem é Staline?  
             A pergunta, que inquieta o próprio Staline, não é expressamente formulada, mas conduz à forma como vive tempo dos serões na mansão em que se refugia acompanhado pela Lídia — trabalho magistral da atriz Emmanuel Seigner, impressiva em todos os planos, de uma contenção que faz vibrar a corda expressiva a uma tal intensidade que se teme a rotura a todo o momento da duração do plano —  a quem Staline incumbe a instalação do divã igual ao de Freud no seu gabinete em Viena, no quarto onde se instala antes do tempo do sono.
            Staline procura-se nesse jogo da interpretação dos sonhos em que Lídia assume jogar o lugar de Freud e onde a revelação — esse lugar que também é o do cinema e da arte, pode acontecer.
            Jogo de tensão permanente em que a fronteira do medo é móvel mas continuadamente presente. Num grande plano em frente do espelho, Depardieu, na sua personagem Staline, diz: “ todos mentem a Staline, até Staline mente a Staline”.
            Quer na sequência da chegada à “dacha”, como da partida, é surpreendente a eficácia do movimento da câmara, a escala de planos, bem como a direção de atores. Sequência que segue o teorizado pelo cineasta Serguei Eisenstein (1934-1948), na sua teoria da montagem e escalas de planos, também ele sofredor, em diferentes momentos da sua carreira, dos excessos de zelo pelo do poder da linguagem cinematográfica dos burocratas da revolução e do próprio Staline. Campo e contra-campo, o individuo e o grupo, Staline e os servidores arregimentados, movimentos de grupo perfilados, síncronos, rígidos, o medo e servidão espelhados nos rostos, o poder, a estranheza e a curiosidade, no rosto e na pose do individuo líder. A servidão e o amor reverencial perante o chefe que transporta e configura o poder absoluto, legitimado na exata medida da submissão expressa das massas que o servem.
             
            Este é um filme em que o fora de campo, o que está fora e para além do enquadrado pela camera, é imenso; um mundo inteiro de vontade, dor, esperança, medo, cobardia, coragem. Uma fenomenologia que marcou a experiencia do mundo em todo o século XX e que, ainda percorre este século XXI. Uma sociedade inteira, de dezenas de milhões de pessoas em luta radical entre o antigo e o novo. Um mundo em confronto na afirmação e desenho de modelos de sociedade, em que o líder da construção da sociedade nova acaba por concentrar em si um poder desmesurado e forte como o monarca absoluto.
            Quantos Stalines têm de existir para que posso ter existido Staline?
            É uma pergunta possível de formular, ontem como hoje de profunda relevância, em particular numa Europa que não sabe o que é ser Europa, e num mundo em que as qualidades dos que exercem o Poder está em discussão permanente. Quem é Staline? Somos todos ou só um é Staline?
            É a idiossincrasia pessoal, o carisma, a chave, ou é o biopsicossocial, essa unidade dinâmica entre o genético e os contextos culturais, sociais, económicos, e todos os outros, os fatores que determinam o mandar e ser cumprido o seu mando, em que tudo o que seja oposição à vontade expressa corre o risco da morte efetiva?
           
            Nascido na Geórgia, aquele que viria a conduzir a transição das repúblicas socialistas de uma Rússia de modelo de sociedade agrícola e feudal para o modelo industrial bolchevique, teve os seus primeiros anos de formação num seminário.
            Quem é José Estaline, cujo nome inicial é Iosebo Djugachivili, conhecido por “Soso” e “Koba”, secretário geral do partido Bolchevique de 1922 a 1953 e primeiro ministro de 1941 a 1953, Marechal, Generalíssimo? 

            No cinema tudo é permitido, os mortos podem falar, podem até morrer e nascer várias vezes. A estranheza de ver a “dacha” , casa de campo construída antes da revolução a 35 km de Moscovo,  por Zubalovo, um bilionário do petróleo de Baku, com a heráldica das quinas portuguesas – plano largo exterior, ou um Staline, sem dúvida de corpo imponente, mas que fala francês, tudo é permitido na convenção cinema ficção, e ainda mais quando o obra em causa, tem a sensibilidade e inteligência de uma realizadora que pensa as imagens, e um cuidado estético e técnico em todos os elementos com que os filmes se constroem, fotografia, som, música, montagem, guarda –roupa, direção de atores, etc, como é o caso. Fanny Ardant oferece-nos com este filme a sua imensa sensibilidade, uma eficácia no trabalho de camera, enquadramento, montagem, enorme sensibilidade do olhar na materialidade filmada. Le Divan de Staline, é um filme de uma inteligência desperta que interroga e descobre novas perguntas, que resiste ao cliché geral e hegemónico da diabolização do ditador. Um filme belo, realizado com mestria e sensibilidade rigorosa de Fanny Ardant que interroga, se o quisermos fazer, o tempo contemporâneo, inteiramente rodado em Portugal no Buçaco, palácio e mata, com produção de Paulo Branco, produtor incontornável na cinematografia da europa dos nossos dias.

Casting:
Staline – Gérard Depardieu
Lídea – Emmanuelle Seigner
Danilov – Paul Hamy
Vlassik – François Chattot
Dovitkine – Tudor Istodor
Varvara – Luna Picoli-Truffaut
Tchirikov – Alexis Manenti


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