O
DIVÃ DE ESTALINE
A 26 de janeiro, em Portugal, chegou
à exibição em sala “LE DIVAN DE STALINE”, o mais recente filme da
atriz/realizadora Fanny Ardant.
A obra resulta da adaptação cinematográfica de
um romance de Jean-Daniel Baltassat, e tem como protagonista Gérard Depardieu.
É a terceira longa metragem realizada da realizadora e teve estreia mundial no
Lisbon & Estoril Film Festival. O primeiro filme, em 2009, CENDRESS ET SANG
, fez parte da seleção oficial de Cannes – fora de competição, do mesmo ano. O
filme está em exibição em França também.
A luz e a sombra é o lugar onde o
filme se instala, mesmo sendo a fotografia do Renaud Personnaz e Renato Berta,
a cores, e notável, convém dizer.
O acesso ao intimo que somos, ler o
que mostram os sonhos, os desejos, ter acesso à caixa de pandora que cada um de
nós é, foi a proposta revolucionaria que Sigismund Freud com a sua nova teoria
da psicanálise e do inconsciente, lançou no mundo a partir de Viena em 1900. Staline
chamava-o de charlatão. Objectivamente,
confrontava-se com essa figura referencial na procura do conhecimento do
homem de si mesmo. A capacidade de olhar-se no espelho, de procurar e decifrar imagens
inscritas no não visível da imagem reflectida.
O filme procura uma resposta à pergunta,
Staline, quem é Staline?
A pergunta, que inquieta o próprio Staline,
não é expressamente formulada, mas conduz à forma como vive tempo dos serões na
mansão em que se refugia acompanhado pela Lídia — trabalho magistral da atriz
Emmanuel Seigner, impressiva em todos os planos, de uma contenção que faz
vibrar a corda expressiva a uma tal intensidade que se teme a rotura a todo o
momento da duração do plano — a quem
Staline incumbe a instalação do divã igual ao de Freud no seu gabinete em
Viena, no quarto onde se instala antes do tempo do sono.
Staline procura-se nesse jogo da
interpretação dos sonhos em que Lídia assume jogar o lugar de Freud e onde a
revelação — esse lugar que também é o do cinema e da arte, pode acontecer.
Jogo de tensão permanente em que a
fronteira do medo é móvel mas continuadamente presente. Num grande plano em
frente do espelho, Depardieu, na sua personagem Staline, diz: “ todos mentem a Staline,
até Staline mente a Staline”.
Quer na sequência da chegada à
“dacha”, como da partida, é surpreendente a eficácia do movimento da câmara, a
escala de planos, bem como a direção de atores. Sequência que segue o teorizado
pelo cineasta Serguei Eisenstein (1934-1948), na sua teoria da montagem e
escalas de planos, também ele sofredor, em diferentes momentos da sua carreira,
dos excessos de zelo pelo do poder da linguagem cinematográfica dos burocratas
da revolução e do próprio Staline. Campo e contra-campo, o individuo e o grupo,
Staline e os servidores arregimentados, movimentos de grupo perfilados,
síncronos, rígidos, o medo e servidão espelhados nos rostos, o poder, a
estranheza e a curiosidade, no rosto e na pose do individuo líder. A servidão e
o amor reverencial perante o chefe que transporta e configura o poder absoluto,
legitimado na exata medida da submissão expressa das massas que o servem.
Este é um filme em que o fora de
campo, o que está fora e para além do enquadrado pela camera, é imenso; um
mundo inteiro de vontade, dor, esperança, medo, cobardia, coragem. Uma
fenomenologia que marcou a experiencia do mundo em todo o século XX e que,
ainda percorre este século XXI. Uma sociedade inteira, de dezenas de milhões de
pessoas em luta radical entre o antigo e o novo. Um mundo em confronto na
afirmação e desenho de modelos de sociedade, em que o líder da construção da
sociedade nova acaba por concentrar em si um poder desmesurado e forte como o
monarca absoluto.
Quantos Stalines têm de existir para
que posso ter existido Staline?
É uma pergunta possível de formular,
ontem como hoje de profunda relevância, em particular numa Europa que não sabe
o que é ser Europa, e num mundo em que as qualidades dos que exercem o Poder
está em discussão permanente. Quem é Staline? Somos todos ou só um é Staline?
É a idiossincrasia pessoal, o
carisma, a chave, ou é o biopsicossocial, essa unidade dinâmica entre o
genético e os contextos culturais, sociais, económicos, e todos os outros, os
fatores que determinam o mandar e ser cumprido o seu mando, em que tudo o que
seja oposição à vontade expressa corre o risco da morte efetiva?
Nascido na Geórgia, aquele que viria
a conduzir a transição das repúblicas socialistas de uma Rússia de modelo de
sociedade agrícola e feudal para o modelo industrial bolchevique, teve os seus
primeiros anos de formação num seminário.
Quem é José Estaline, cujo nome
inicial é Iosebo Djugachivili, conhecido por “Soso” e “Koba”, secretário geral
do partido Bolchevique de 1922 a 1953 e primeiro ministro de 1941 a 1953,
Marechal, Generalíssimo?
No
cinema tudo é permitido, os mortos podem falar, podem até morrer e nascer
várias vezes. A estranheza de ver a “dacha” , casa de campo construída antes da
revolução a 35 km de Moscovo, por
Zubalovo, um bilionário do petróleo de Baku, com a heráldica das quinas
portuguesas – plano largo exterior, ou um Staline, sem dúvida de corpo
imponente, mas que fala francês, tudo é permitido na convenção cinema ficção, e
ainda mais quando o obra em causa, tem a sensibilidade e inteligência de uma
realizadora que pensa as imagens, e um cuidado estético e técnico em todos os
elementos com que os filmes se constroem, fotografia, som, música, montagem,
guarda –roupa, direção de atores, etc, como é o caso. Fanny Ardant oferece-nos
com este filme a sua imensa sensibilidade, uma eficácia no trabalho de camera,
enquadramento, montagem, enorme sensibilidade do olhar na materialidade
filmada. Le Divan de Staline, é um filme de uma inteligência desperta que
interroga e descobre novas perguntas, que resiste ao cliché geral e hegemónico
da diabolização do ditador. Um filme belo, realizado com mestria e
sensibilidade rigorosa de Fanny Ardant que interroga, se o quisermos fazer, o
tempo contemporâneo, inteiramente rodado em Portugal no Buçaco, palácio e mata,
com produção de Paulo Branco, produtor incontornável na cinematografia da
europa dos nossos dias.
Casting:
Staline
– Gérard Depardieu
Lídea
– Emmanuelle Seigner
Danilov
– Paul Hamy
Vlassik
– François Chattot
Dovitkine
– Tudor Istodor
Varvara
– Luna Picoli-Truffaut
Tchirikov
– Alexis Manenti
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