OS CÃES GUERREIROS
É já no dia 25, sábado, que tem
ante-estreia mundial no FANTASPORTO2017 o filme do Jorge António, a “ILHA DOS
CÃES”, na sessão das 18h30m do grande auditório do Rivoli.
O filme arranca, afirmando uma das mais
belas premissas da compreensão hermenêutica do mundo, a da sua apreensão
metafísica irredutível ao positivismo da razão cartesiana. Começa com um
belíssimo céu azul e nuvens brancas que nos aproximam do pico de uma montanha
em ilha tropical. Em simultâneo, em off, alguém nos diz numa língua estranha –
Kimbundu ( a terceira língua mais falada de Angola na zona centro- norte, eixo
Luanda –Malange e no Kwanza-Sul), que no mundo há mais mistério do que pensamos
que possa haver. Essa voz que parece chegar de um tempo remoto, faz-nos
lembrar, tornar consciente, o mundo como mistério impenetrável à total
revelação.
O
texto off, transporta a voz profunda da África animista e dá-nos conta dos
laços da civilização comuns, faz ecoar Shakespeare “ Há mais coisas entre o céu
e a terra do que pode imaginar a nossa vã filosofia”.
A “ILHA DOS CÃES”, tem um livro como de base da narrativa que se
chama "Os Senhores do Areal", escrito em 1992 por Henrique Abranches
(1932-2006). Escritor Angolano, com vasta obra literária e estudos
etnográficos, e uma vida de atividade política intensa.
O filme foi rodado com fundos
públicos Portugueses, ganhou um concurso em 2011. Segundo o realizador Jorge
António: “O filme começou por ser uma co-produção
Portugal - Angola, mas as rodagens coincidiram com a crise do petróleo (que
ainda hoje se mantém) e tivemos que optar por (ou não fazer o filme) ou
redimensionar o guião e o mapa de Produção. Foi a Produtora Ana Costa que
"salvou" o projecto com a mudança de cenário para S. Tomé e Príncipe.
De
Angola, existe apenas apoio institucional. Porque acabamos por filmar cenas em
Luanda e no Deserto do Namibe”.
Vi a projeção do filme
na sala de misturas finais, uma sala de masterização montada pelo António da Cunha Telles, por onde
tem passado centenas de filmes, entre os quais a minha curta TUDO BEM e a longa
CRIME ( estes filmados sem apoios públicos)
numa sessão em que para além de mim estava o Jorge António, o Pedro Góis
– que é hoje o dono do estúdio – e o músico do filme José Castro.
ILHA
DOS CÃES fala-nos de dois tempos, paradoxalmente ou não, próximos e distantes,
o tempo colonial e o do novo país independente e soberano. Por estranhos e
inexplicáveis mistérios, as almas dos homens africanos que no retrato filmado no
tempo colonial são tratados com a brutalidade da posse dos corpos e das ideias,
quando se revoltavam e a punição derradeira da morte chegava, transmigravam
para uma matilha de cães que viviam livres na ilha.
Anos
mais tarde, na actualidade, a ilha, território de beleza natural exuberante, é
objecto de um projecto de construção imobiliária, um resort de luxo, e os cães revoltam-se, estão contra o novo domínio
que está a chegar, — já não é o tirano do colonialista que obrigava ao trabalho
braçal nas fazendas de café ou cacau, mas uma sociedade imobiliária.
Há uma frase curiosa neste filme que o realizador
assume como político, e que de alguma forte abra a uma nova perspectiva sobre o
domínio do homem branco. O interessante cinematográfico é que a frase acompanha
a materialidade da imagem, é dita pelo africano, quadro superior da empresa de
construção: : —estou a tornar-me branco. No seu corpo de pele negra as manchas
brancas ganham cada vez mais território.
O
filme levanta, ou pelo menos permite questionar neste tempo pós-colonial, o que
é afinal o domínio do homem branco? Ou se quisermos, invertendo, o que é afinal
a libertação do homem negro?
Ao
que parece, na ilha, os cães habitados por almas insubmissas, inventaram uma
nova soberania, invisível, mas eficaz, as dos espíritos guardiões da natureza.
A ILHA DOS CÃES (2016)
Produção:
Ana Costa
Realização:
Jorge António
Argumento:
Jorge António, Paulo Leite e Virgilio Almeida
Imagem:
Tony Costa
Montagem:
Filipe Roque do Vale
Musica:
José Castro
Som:
Pedro Góis
Figurinos:
Silvia Grabowski
Efeitos
Visuais: Pedro Louro
Com:
Angelo Torres, Miguel Hurst, Nicolau Breyner, João Cabral, Ciomara Morais, José
Eduardo, Daniel Martinho, Welket Bungué, Matamba Joaquim, Giovanni Lourenço,
Miguel Sermão. Júlio Mesquita entre outros
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