CIDADE
ECRÃ
Rui Filipe Torres TEMPOS
DIFÍCIEIS, AI O CINEMA, O CINEMA
Hard Times, For These Times, é
o título da obra literária do Charles Dickens e do terceiro filme do João
Botelho (1988), 90 minutos, com um preto e branco nativo (na rodagem) notável,
filmado em 35 mm pelo Elso Roque, direção de arte do Jasmim de Matos, um talento
que infelizmente já não partilha connosco nem as esperanças nem o sofrimento do
quotidiano vivido.
Mas este
título e esta crónica, não é sobre esta obra cinematográfica, é sobre os
continuados TEMPOS DIFÍCIEIS do cinema Português.
O anunciado
novo enquadramento legislativo, em lugar de ser um tempo de reflexão crítica
por parte dos seus principais atores, os que o fazem, e os que o distribuem em
sala, sobre qual cinema serve Portugal, e qual a legitimidade e a eficácia na
decisão dos apoios públicos ao cinema, tem sido um tempo de vigor nas explosões
intestinas, na defesa dos interesses já conhecidos e em vigor nestas últimas
três a quatro décadas, ou seja, desde os anos 80 do século vinte.
Nas redes
sociais, em artigos de imprensa, em cartas abertas postas a circular em
festivais internacionais de cinema, a pressão das fações dos “donos” do direito
a fazer cinema com fundos públicos em Portugal, manifesta-se de forma mais
corporativa e fratricida, do que na verdade empenhada em posicionamentos
estéticos ou teóricos sobre um pensamento sistematizado sobre o cinema neste
tempo concreto da hipermodernidade que vivemos.
Em resumo,
temos assistido ao território da criação cinematográfica radicado em duas
igrejas. Ambas falam em nome da relação do cinema com o público, ou melhor com
os públicos. O deus verdadeiro está em cada uma, segundo os próprios
funcionários, ou crentes, da instituição respectiva. Uma igreja segue mais de
perto a teologia do marketing, essa grande ciência que sabe mais das nossas
vontades e necessidades do que nós mesmos, e a outra, sente-se dona, legitima e
única continuadora da chamada política de autor - movimento do cinema europeu iniciado com a
geração dos “Cahiers du cinema”,
Bazin, Godart, etc, afirmando recusar-se
a tratar os públicos como imbecis. Mas, a razão de fundo da querela é outra, é
que, para filmar em Portugal com o mínimo de condições necessárias para cumprir
as obrigações com as equipas técnicas e artísticas; os custos de desenvolvimento, preparação,
produção, pós-produção e de comunicação de um filme com possibilidade de
existir nos circuitos de exibição nacional e internacional, salvo casos
esporádicos e nessa condição únicos, é necessário ter os apoios financeiros que
resultam das políticas culturais públicas e, como os montantes são sempre
escassos, o eixo do mal instalasse, e em cada
igreja, instalasse a verdade com
exclusão do que lhe esteja fora. Conviria,
parece-me, traçar de forma breve o “estado da arte”, com o enfoque no cinema e na
sua contaminação no banal quotidiano.
O cinema é matéria de múltiplos
territórios, é transdisciplinar, é arte e indústria, contamina comportamentos,
atitudes, artes, num duplo movimento de apropriação e recriação do apropriado.
É o mais poderoso construtor do “phatos” (palavra
grega que significa paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade,
sofrimento, sentimento, ligação afetiva), utilizando a terminologia do cineasta
Eisenstein (1898-1948), neste tempo da irrupção de milhões de subjetividades,
de comunidades afectivas territorialmente difusas. O cinema afirma-se enquanto olhar
singular do homem sobre si e sobre o mundo.
Capaz de transportar o expectador para
a tela, o cinema é produtor de modelos e da reflexão crítica aos modelos que
cria, é construtor de sombras e de luz, inventor de presentes, passados e
futuros possíveis, afirma a radical dimensão da construção simbólica como
alicerce e pilar para toda a tentativa hermenêutica do humano olhar sobre o
mundo.
Presente na forma e no desejo do habitar
dos quotidianos pelas populações urbanas indiferentemente das geografias e
modos de vida, sejam mais ou menos conservadoras, liberais, alternativas,
dissidentes, feministas, pós-feministas ou pós-revolucionárias, o cinema está presente e, essa presença,
sustenta e enforma olhares e subjetividades, visões do eu e do outro.
O cinema é uma poderosa força construtora de mundos e do
mundo.
É neste contexto que
se tem de pensar a política de fundos públicos de apoio ao sector. O momento de
um novo enquadramento legislativo é o talvez o melhor dos tempos para, por
exemplo, pensar a articulação entre fundos públicos para o cinema e política
externa de Portugal. O cinema e os objectivos e necessidades estratégicas de
Portugal no curto, médio e longo prazo.
A questão é, ou pelo menos a mim parece-me que
deveria ser:
Que cinema serve Portugal?
Qual a legitimidade e a eficácia na decisão
dos apoios públicos ao cinema?
Pode um sistema de júris exteriores à
administração pública cumprir com eficácia o entendimento das políticas
públicas para o Cinema? Se sim, de que
forma?
Apesar da
chamada participação dos atores em campo, não se encontra facilmente qual seja
a não legitimidade a que seja o ICA que assuma e garanta as decisões de
financiamento com base no cumprimento das linhas programáticas de curto e médio
prazo definidas em sede própria – o governo eleito.
A
constantemente transparência enquanto valor, o chamado não dirigismo do gosto
pelo poder político, com a solução dos júris vindos e representantes dos
diversos sectores da atividade cinematográfica, é, ou pode ser, um pensamento
bondoso, mas nada garante que seja mais do que isso
A obrigatoriedade de pensar o cinema numa
visão integrada e alargada tanto às questões da comunicação de Portugal no
mundo contemporâneo, como à oferta
cultural em território nacional, como à diversidade estética própria da
cinematografia contemporânea, não me parece que fique necessariamente melhor
entregue fora do que dentro do organismo que depende da tutela do Ministério da
Cultura.
Em registo
de conclusão.
A velha
discussão Bragança – Paris, apoia-se na irrelevante, estafada e sem
fundamentação teórica credível, oposição entre cinema arte e cinema indústria,
paradoxalmente, continua a legitimar o
discurso e pensamento sobre o cinema que se faz e que importa fazer.
O cinema, “
o diálogo do mundo contemporâneo”, como afirmou Elia Kazan, é arte e industria,
tem a razão da sua paixão nos públicos numa ancestralidade muito anterior a si,
a necessidade de narrativas que acompanha a história do homem no mundo. A
discussão arte cinematográfica versus industria é bacoca, ignorante e enganosa.
O que existe são diferentes modelos de produção, e todas as possibilidade de
filme conhecidas ou a conhecer. A questão dos fundos públicos, das políticas
públicas para o cinema português é central e vai continuar a ser, mas nenhuma
igreja tem legitimidade acrescida.
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