VONTADE DE CINEMA
3-14 de Maio 14º INDIE LISBOA
Na competição nacional
estão seis longas metragens e dezoito curtas, o maior contingente de sempre na
competição nacional do IndieLisboa. No total, são perto de quarenta filmes
portugueses, na sua maioria em estreia mundial ou nacional, nas diferentes
secções do festival. Macau
tem presença nesta edição do Indie lisboa, num olhar
sobre o que está a acontecer na cinematografia da território, com a colaboração
do Instituto de Turismo de Macau.
Dia 1
Ficção, 2017, 135′, DCP
Argumento: Teresa Villaverde
Fotografia: Acácio de Almeida
Som: Vasco Pimentel
Montagem: Rodolphe Molla
Com: João Pedro Vaz, Alice Albergaria Borges,
Beatriz Batarda
Produtor: Teresa Villaverde
Produção: Alce Filmes
Países: Portugal, França
COLO, de Teresa Villaverde – UM FILME
QUE NOS FALA DA FALÊNCIA, foi o filme da sessão de abertura e esgotou os
830 lugares da sala Manuel de Oliveira . Na projeção, para além do público
cinéfilo, realizadores, atrizes, atores, produtores, técnicos, esteve o
primeiro ministro António Costa. Em registo de piada com a irreverência usual
em cerimónias de abertura de festivais de cinema, foi apresentada a edição e
dadas as boas vindas ao público e aos participantes e, aproveitando a presença
do 1º ministro, foi sugerido que uma geringonça oleada e funcionar, sabe
seguramente que investir 2% do orçamento geral do estado na cultura, é a
condição necessária para tornar
efetivamente ativo e dinâmica o sector, para ultrapassar a percepção geral das
políticas públicas da cultura como um exercício sobre o supérfluo, o não necessário, os foguetes que se estoiram no calendário das
festas ou eleitorais, mas sim atividade necessária para a continuidade da
afirmação do capital simbólico e imaterial de Portugal no mundo. No caso do
cinema, é a possibilidade de muitas e talentosos profissionais trabalharem,
afirmando o papel central do cinema no dialogo do mundo contemporâneo, no
desenvolvimento das cidades como espaços criativos, alavancar esta
arte/indústria para patamares com maior desenvolvimento e retorno, também
financeiro. COLO é um filme que continua o universo
cinematográfico da realizadora, onde o tempo da adolescência é central, e os
movimentos de autónoma e aproximação ao real normativo são de confronto,
incompatibilidade, sofrimento, mágoa, desencanto, revolta. No filme COLO, que
teve estreia mundial na competição oficial do último Festival de Berlim, a trama
narrativa desenrola-se seguindo o quotidiano de uma família jovem e suburbana
da baixa classe média em desintegração em resultado da fragilidade e ausência
de emprego. Mas cinematografia de Teresa Villaverde tem a sua vitalidade no não
abdicar do habitar do poético, do trabalho pictórico na composição das linhas e
mise-en-céne dos planos, nas relação das personagens com o espaço e com
o tempo em que movem. No
texto de apresentação, é escrito “ ... filme, sempre à beira de explodir, que
nos recorda do direito fundamental à felicidade.”
A
felicidade é uma coisa estranha, mas quando nem dinheiro há para a conta da
eletricidade, mesmo que a capacidade de fantasiar jantares à luz de velas e
imaginar quotidianos em séculos anteriores à sua invenção seja ativada, ser
feliz começa a ser coisa muito distante, um exercício condenado ao insucesso. O encanto
cinematográfico deste filme irrompe da sua construção no fio da navalha. Embora
seja visível a construção narrativa dos 3 atos, é anulado o conforto narrativo
de seguir uma personagem principal, sim é filha adolescente, sim é a amiga
adolescente da filha, sim é o pai, sim é a mãe.
Ou seja, temos quatro personagens principais. É possível, dar centralidade
à figura da mulher que também é mãe, que também é esposa, que também trabalha,
que é quem cuida, que é quem ousa sobreviver e organizar um universo que
desaba. Mas se ser mulher neste tempo e neste contexto é tudo isto; ser o eixo,
o lugar ómega e alfa, é humanamente impossível ser super-mulher, e o colapso é inevitável.
COLO
é um filme lento, que se anuncia no plano inicial do beijo e separação da filha
adolescente e namorado, instalasse e ganha singularidade estética
cinematográfica quando se abre a roturas na racionalidade narrativa, se liberta
e abre à errância e falência dos personagens num mundo em perda, mas que ainda
assim sobrevivem e, talvez, venham a ganhar novas possibilidades de vida.
Dia 2
CIAO CIAO , filme de Song Chuan
Competição Internacional
Ficção, 2017, 83′, DCP
Argumento: Song Chuan
Fotografia: Li Xuejun
Som: Gao Yuan
Montagem: Jean-Marie Lengellé, Song Chuan
Com: Liang Xueqin, Zhang Yu, Hong Chang
Produtor: Guillaume de la Boulaye
Produção: Zorba Production
Países: França, China
Mas a vida
dos homens e mulheres novos e velhos neste tempo contemporâneo que o filme partilha
e constrói com cada um na experiência estética de cada projeção.
É a fala do desejo de mundo, da visão da liberdade
e possibilidades em aberto que cidade oferece nos sonhos e desejos dos jovens adultos numa aldeia
no interior da grande China.
A tensão
entre o antigo e o moderno, o ancestral e a vanguarda, é vivido na construção e dinâmicas sociais do real na
aldeia onde a imagem perante o outro, a tradição e a hierarquia, são forças nucleares
que laçam e seguram uma cultura milenar em que os filhos devem respeito aos
pais e ter presente esse tempo que chegará, em que a sua função social é a de
cuidadores, aqueles que zelam para que uma velhice tranquila, serena, em paz,
seja vivida. Mas a aldeia não está
isolada do mundo moderno, as redes de satélite asseguram o sinal de antena nos
telemóveis, e nos diferentes ecrãs fixos ou móveis, como resistir à pulsão do
desejo, à liberdade e anonimato dos corpos que a grande cidade oferece, é isso
possível?
O filme
começa com a protagonista,
jovem mulher moderna que está a chegar a casa dos pais vinda da
grande metrópole de Cantão. Faz-se acompanhar pela sua mala e sapatos Louis
Vuitton e lenço Hermès. A sua presença agita um pouco o quotidiano da pequena comunidade, onde os
homens jovens jogam , bebem, e frequentam mulheres que vendem sexo. Ela está
desejosa de voltar à cidade, mas os pais têm um plano diferente: casá-la com o
filho de um homem rico quem mantem relações de negocio, e mãe uma relação
sexual transgressiva, escondida da claridade da aldeia. Na deslumbrante paisagem rural chinesa a camera
próxima dos rostos e dos corpos dá-nos a interioridade da vida, o desejo e a
contenção, os códigos sociais de um
mundo onde sangue, honra, hierarquia não são conceitos vagos mas práticas que
facilmente podem conduzir ao abismo da morte. De notar a banda de som
coadjuvante para esta mistura de corpos, paisagem, desejo, transgressão e
convenção, neste filme perfeito para esta fala no contemporâneo que opõe os
desejos de duas Chinas, a rural e a urbana.


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