terça-feira, 16 de maio de 2017

VONTADE DE CINEMA 3-14 de Maio 14º INDIE LISBOA

VONTADE DE CINEMA
3-14 de Maio  14º INDIE LISBOA
Na competição nacional estão seis longas metragens e dezoito curtas, o maior contingente de sempre na competição nacional do IndieLisboa. No total, são perto de quarenta filmes portugueses, na sua maioria em estreia mundial ou nacional, nas diferentes secções do festival. Macau tem presença nesta edição do Indie lisboa, num olhar sobre o que está a acontecer na cinematografia da território, com a colaboração do Instituto de Turismo de Macau.
Dia 1
Ficção, 2017, 135′, DCP
Argumento: Teresa Villaverde
Fotografia: Acácio de Almeida
Som: Vasco Pimentel
Montagem: Rodolphe Molla
Com: João Pedro Vaz, Alice Albergaria Borges, Beatriz Batarda
Produtor: Teresa Villaverde
Produção: Alce Filmes
Países: Portugal, França
COLO, de Teresa Villaverde – UM FILME QUE NOS FALA DA FALÊNCIA, foi o filme da sessão de abertura e esgotou os 830 lugares da sala Manuel de Oliveira . Na projeção, para além do público cinéfilo, realizadores, atrizes, atores, produtores, técnicos, esteve o primeiro ministro António Costa. Em registo de piada com a irreverência usual em cerimónias de abertura de festivais de cinema, foi apresentada a edição e dadas as boas vindas ao público e aos participantes e, aproveitando a presença do 1º ministro, foi sugerido que uma geringonça oleada e funcionar, sabe seguramente que investir 2% do orçamento geral do estado na cultura, é a condição necessária para  tornar efetivamente ativo e dinâmica o sector, para ultrapassar a percepção geral das políticas públicas da cultura como um exercício sobre o supérfluo,  o não necessário,  os foguetes que se estoiram no calendário das festas ou eleitorais, mas sim atividade necessária para a continuidade da afirmação do capital simbólico e imaterial de Portugal no mundo. No caso do cinema, é a possibilidade de muitas e talentosos profissionais trabalharem, afirmando o papel central do cinema no dialogo do mundo contemporâneo, no desenvolvimento das cidades como espaços criativos, alavancar esta arte/indústria para patamares com maior desenvolvimento e retorno, também financeiro. COLO é um filme que continua o universo cinematográfico da realizadora, onde o tempo da adolescência é central, e os movimentos de autónoma e aproximação ao real normativo são de confronto, incompatibilidade, sofrimento, mágoa, desencanto, revolta. No filme COLO, que teve estreia mundial na competição oficial do último Festival de Berlim, a trama narrativa desenrola-se seguindo o quotidiano de uma família jovem e suburbana da baixa classe média em desintegração em resultado da fragilidade e ausência de emprego. Mas cinematografia de Teresa Villaverde tem a sua vitalidade no não abdicar do habitar do poético, do trabalho pictórico na composição das linhas e mise-en-céne dos planos,  nas relação das personagens com o espaço e com o tempo em que movem.  No texto de apresentação, é escrito “ ... filme, sempre à beira de explodir, que nos recorda do direito fundamental à felicidade.”                                                        
 A felicidade é uma coisa estranha, mas quando nem dinheiro há para a conta da eletricidade, mesmo que a capacidade de fantasiar jantares à luz de velas e imaginar quotidianos em séculos anteriores à sua invenção seja ativada, ser feliz começa a ser coisa muito distante, um exercício condenado ao insucesso. O encanto cinematográfico deste filme irrompe da sua construção no fio da navalha. Embora seja visível a construção narrativa dos 3 atos, é anulado o conforto narrativo de seguir uma personagem principal, sim é filha adolescente, sim é a amiga adolescente da filha, sim é o pai, sim é a mãe.  Ou seja, temos quatro personagens principais. É possível, dar centralidade à figura da mulher que também é mãe, que também é esposa, que também trabalha, que é quem cuida, que é quem ousa sobreviver e organizar um universo que desaba. Mas se ser mulher neste tempo e neste contexto é tudo isto; ser o eixo, o lugar ómega e alfa, é humanamente impossível ser super-mulher,  e o colapso é inevitável.                                                    
COLO é um filme lento, que se anuncia no plano inicial do beijo e separação da filha adolescente e namorado, instalasse e ganha singularidade estética cinematográfica quando se abre a roturas na racionalidade narrativa, se liberta e abre à errância e falência dos personagens num mundo em perda, mas que ainda assim sobrevivem e, talvez, venham a ganhar novas possibilidades de vida.

Dia 2




CIAO CIAO , filme de Song Chuan
Competição Internacional

Ficção, 2017, 83′, DCP
Argumento: Song Chuan
Fotografia: Li Xuejun
Som: Gao Yuan
Montagem: Jean-Marie Lengellé, Song Chuan
Com: Liang Xueqin, Zhang Yu, Hong Chang
Produtor: Guillaume de la Boulaye
Produção: Zorba Production
Países: França, China
 VERDE, VERMELHO, CASTANHO DOURADO, é impossível ficar-se indiferente à beleza formal deste drama, à la Tennesse Wiliams, que se joga na força plástica entre a escala e beleza imensa das montanhas, céus  e vales da terra mãe, e os planos aproximados aos corpos e grandes planos do rosto da sensual e bela protagonista.
Mas a vida dos homens e mulheres novos e velhos neste tempo contemporâneo que o filme partilha e constrói com cada um na experiência estética de cada projeção.
 É a fala do desejo de mundo, da visão da liberdade e possibilidades em aberto que cidade oferece nos  sonhos e desejos dos jovens adultos numa aldeia no interior da grande China.
 A tensão entre o antigo e o moderno, o ancestral e a vanguarda, é vivido na  construção e dinâmicas sociais do real na aldeia onde a imagem perante o outro, a tradição e a hierarquia, são forças nucleares que laçam e seguram uma cultura milenar em que os filhos devem respeito aos pais e ter presente esse tempo que chegará, em que a sua função social é a de cuidadores, aqueles que zelam para que uma velhice tranquila, serena, em paz, seja vivida.  Mas a aldeia não está isolada do mundo moderno, as redes de satélite asseguram o sinal de antena nos telemóveis, e nos diferentes ecrãs fixos ou móveis, como resistir à pulsão do desejo, à liberdade e anonimato dos corpos que a grande cidade oferece, é isso possível?
 O filme começa com  a protagonista, jovem mulher moderna que está a chegar a casa dos pais vinda da grande metrópole de Cantão. Faz-se acompanhar pela sua mala e sapatos Louis Vuitton e lenço Hermès. A sua presença agita um pouco  o quotidiano da pequena comunidade, onde os homens jovens jogam , bebem, e frequentam mulheres que vendem sexo. Ela está desejosa de voltar à cidade, mas os pais têm um plano diferente: casá-la com o filho de um homem rico quem mantem relações de negocio, e mãe uma relação sexual transgressiva, escondida da claridade da aldeia.  Na deslumbrante paisagem rural chinesa a camera próxima dos rostos e dos corpos dá-nos a interioridade da vida, o desejo e a contenção, os códigos  sociais de um mundo onde sangue, honra, hierarquia não são conceitos vagos mas práticas que facilmente podem conduzir ao abismo da morte. De notar a banda de som coadjuvante para esta mistura de corpos, paisagem, desejo, transgressão e convenção, neste filme perfeito para esta fala no contemporâneo que opõe os desejos de duas Chinas, a rural e a urbana.



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