sábado, 17 de junho de 2017

 OS CÃES GUERREIROS

            É já no dia 25, sábado, que tem ante-estreia mundial no FANTASPORTO2017 o filme do Jorge António, a “ILHA DOS CÃES”, na sessão das 18h30m do grande auditório do Rivoli.

            O filme arranca, afirmando uma das mais belas premissas da compreensão hermenêutica do mundo, a da sua apreensão metafísica irredutível ao positivismo da razão cartesiana. Começa com um belíssimo céu azul e nuvens brancas que nos aproximam do pico de uma montanha em ilha tropical. Em simultâneo, em off, alguém nos diz numa língua estranha – Kimbundu ( a terceira língua mais falada de Angola na zona centro- norte, eixo Luanda –Malange e no Kwanza-Sul), que no mundo há mais mistério do que pensamos que possa haver. Essa voz que parece chegar de um tempo remoto, faz-nos lembrar, tornar consciente, o mundo como mistério impenetrável à total revelação.
            O texto off, transporta a voz profunda da África animista e dá-nos conta dos laços da civilização comuns, faz ecoar Shakespeare “ Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vã filosofia”.
            A “ILHA DOS CÃES”, tem um livro como de base da narrativa que se chama "Os Senhores do Areal", escrito em 1992 por Henrique Abranches (1932-2006). Escritor Angolano, com vasta obra literária e estudos etnográficos, e uma vida de atividade política intensa.
            O filme foi rodado com fundos públicos Portugueses, ganhou um concurso em 2011. Segundo o realizador Jorge António: “O filme começou por ser uma co-produção Portugal - Angola, mas as rodagens coincidiram com a crise do petróleo (que ainda hoje se mantém) e tivemos que optar por (ou não fazer o filme) ou redimensionar o guião e o mapa de Produção. Foi a Produtora Ana Costa que "salvou" o projecto com a mudança de cenário para S. Tomé e Príncipe.
            De Angola, existe apenas apoio institucional. Porque acabamos por filmar cenas em Luanda e no Deserto do Namibe”.
            Vi a projeção do filme na sala de misturas finais, uma sala de masterização  montada pelo António da Cunha Telles, por onde tem passado centenas de filmes, entre os quais a minha curta TUDO BEM e a longa CRIME ( estes filmados sem apoios públicos)  numa sessão em que para além de mim estava o Jorge António, o Pedro Góis – que é hoje o dono do estúdio – e o músico do filme José Castro.
            ILHA DOS CÃES fala-nos de dois tempos, paradoxalmente ou não, próximos e distantes, o tempo colonial e o do novo país independente e soberano. Por estranhos e inexplicáveis mistérios, as almas dos homens africanos que no retrato filmado no tempo colonial são tratados com a brutalidade da posse dos corpos e das ideias, quando se revoltavam e a punição derradeira da morte chegava, transmigravam para uma matilha de cães que viviam livres na ilha.
            Anos mais tarde, na actualidade, a ilha, território de beleza natural exuberante, é objecto de um projecto de construção imobiliária, um resort de luxo, e os cães revoltam-se, estão contra o novo domínio que está a chegar, — já não é o tirano do colonialista que obrigava ao trabalho braçal nas fazendas de café ou cacau, mas uma sociedade imobiliária.
             Há uma frase curiosa neste filme que o realizador assume como político, e que de alguma forte abra a uma nova perspectiva sobre o domínio do homem branco. O interessante cinematográfico é que a frase acompanha a materialidade da imagem, é dita pelo africano, quadro superior da empresa de construção: : —estou a tornar-me branco. No seu corpo de pele negra as manchas brancas ganham cada vez mais território.
            O filme levanta, ou pelo menos permite questionar neste tempo pós-colonial, o que é afinal o domínio do homem branco? Ou se quisermos, invertendo, o que é afinal a libertação do homem negro?
            Ao que parece, na ilha, os cães habitados por almas insubmissas, inventaram uma nova soberania, invisível, mas eficaz, as dos espíritos guardiões da natureza.
           

           
A ILHA DOS CÃES (2016)

Produção: Ana Costa
Realização: Jorge António
Argumento: Jorge António, Paulo Leite e Virgilio Almeida
Imagem: Tony Costa
Montagem: Filipe Roque do Vale
Musica: José Castro
Som: Pedro Góis
Figurinos: Silvia Grabowski
Efeitos Visuais: Pedro Louro

Com: Angelo Torres, Miguel Hurst, Nicolau Breyner, João Cabral, Ciomara Morais, José Eduardo, Daniel Martinho, Welket Bungué, Matamba Joaquim, Giovanni Lourenço, Miguel Sermão. Júlio Mesquita entre outros



terça-feira, 16 de maio de 2017

SÃO JORGE. CINEMA COM LETRA GRANDE EM TODOS OS FRAMES

SÃO JORGE. CINEMA COM LETRA GRANDE EM TODOS OS FRAMES

            CHEGOU esta semana a 26 salas este filme que Macau já conhece. É o vencedor do 1º festival internacional de Macau e, ao seu protagonista, foi atribuído o galardão para o melhor ator, no reconhecido festival internacional de cinema de Veneza, festival classe A, entre outros prémios em outros festivais. 






           O mundo é sempre a matéria dos filmes, mas há filmes em que essa fala se agiganta, nesse continuo de imagem em movimento em que o espaço e o tempo, a vida, mais do representação mimética do real se tornam o próprio real. No caso, revelando a profunda e heterodoxa devassidão da alegria natural dos corpos, o esforço imenso dos indivíduos neste contínuo esbracejar para a permanência do ato  de respirar, manter a cabeça fora de água, neste corpo e tempo social de dinâmicas submetidas ao ritmo da batuta das leis do mercado, o grande deus do contemporâneo, e único chefe de orquestra.
             SÃO JORGE, é um filme maior  de um  realizador que afirma o cinema como lugar da visibilidade do mundo.
            Filme belo e duro, expressão profunda das dinâmicas sociais da multidão em contínua luta pela permanência na vida,  materializada através da história do Jorge, o herói moderno, isto é, o anti-herói, aquele que entra em movimento não por decisão da sua vontade, mas porque as condições sociais, contextuais, em que submerge lhe impõem o movimento. SÃO JORGE, é cinema  de um  realizador que conhece  o mundo e o cinema no mundo.
           
            O espaço, o “em campo”, é central na construção dos filmes, ou pelo menos para a grande generalidade deles. No caso é. O trabalho de escolha dos décores é notável, trás ao ecrã os territórios das cidades invisíveis, não com o olhar decorativo do género telenovela, mas com o olhar do cinema,  enquanto matéria cinematográfica, temática e estética, unidade espacial capaz da produção de sentido. A direção de arte e o guarda roupa é irrepreensível, bem como cabelos e maquilhagem. É o que no cinema não há pormenores a mais nem a menos.
            O trabalho de camera, a luz, é igualmente notável. 
            O realizador conduz-nos com o seu personagem Jorge, pelos territórios da sobrevivência do amor e da dignidade a esforço de sangue, de morte, de dor. À guerra calada das multidões que nas horas antes do amanhecer limpam os escritórios dos edifícios luminosos de paredes de vidro. E também à luta dos que ousam o prazer do luxo da estética dos sabores e que sucumbem perante os compromissos do crédito. É o caso do cozinheiro patrão no restaurante de luxo, representado com grande maturidade, de forma empenhada e brilhante, pelo ator Gonçalo Waddington.
            Leva-nos com a vida do Jorge, um branco num bairro social onde a maioria étnica tem ancestralidade em África, no Brasil mestiço e nas novas migrações de leste. Um bairro que é uma comunidade de sobreviventes, que apreendem e sentem o mundo com a sua experiencia e o que as televisões transmitem, onde não há tempo para queixas e a dor tem de ser engolida a seco. 
            Dar socos e conseguir encaixa-los é a grande arte que pode permitir a claridade desejado lá mais à frente, um à frente sempre longe, mas ainda assim pelo qual se continua a correr, a caminhar, a sofrer, na tentativa de não sentir a condição da humilhação instalada nas paredes das casas inacabadas, em que os tijolos são  nervosos  ásperos cobertos a graffies.

            Jorge tem um filho, o Nelson, a ternura, o amor que envolve a relação dos dois é de uma beleza extrema, profundamente humana, imensamente comovente. Vive com ele no acanhado quarto onde os seus troféus de boxe tem o valor das estátuas dos santos das igrejas, são imagens ícones. O quarto fica no pequeno apartamento dos seus pais, são muitos os que por ali habitam.
            A casa da família do Jorge é uma versão contemporânea e suburbana desse outro filme enorme, “feios porcos e maus”, do Ettore Scola, produção de 1976. Mas o Marco Martins não tem a família como o núcleo da narrativa, é um dado, um contexto, mas não é o objecto do filme. É o Jorge e o seu mundo quem, ao longo de todo o filme, a camera segue, acompanha, por vezes antecipa.
            Susana, a mulher que é a mãe do Nelson, é uma emigrante Brasileira que saiu da casa dos pais do Jorge por não aguentar a forma como era tratada, mal tratada. Susana e Nelson, são  interpretações de enorme sensibilidade e equilíbrio.
            Susana quer-se afastar de tudo. Tem como projecto regressar ao Brasil com o filho de ambos. Jorge consegue dinheiro para alugar uma casa, só dessa forma será possível ter o filho e Susana consigo.
            Este é um filme que caracteriza bem o modelo atual de produção cinema independente. Filme híbrido, em que o documentário e a ficção estão presentes na mesma narrativa, com atores e não-atores  -   personagens que se representam a si mesmos na narrativa -  e no qual, a discussão cinema arte cinema comercial, não se coloca, está ultrapassada logo à partida.  É cinema ponto.
            Filme a todos os níveis de análise notável. A ante-estreia na Cinemateca teve duas sessões na sala Félix Ribeiro, dado que muitos, como foi o meu caso, não quiseram adiar o encontro com o filme na sala escura das revelações da materialidade do mundo.
            A não perder.

País :  Portugal.  Ano de produção: 2016. Realizador: Marco Martins. Duração: 1h52m  

VONTADE DE CINEMA 3-14 de Maio 14º INDIE LISBOA

VONTADE DE CINEMA
3-14 de Maio  14º INDIE LISBOA
Na competição nacional estão seis longas metragens e dezoito curtas, o maior contingente de sempre na competição nacional do IndieLisboa. No total, são perto de quarenta filmes portugueses, na sua maioria em estreia mundial ou nacional, nas diferentes secções do festival. Macau tem presença nesta edição do Indie lisboa, num olhar sobre o que está a acontecer na cinematografia da território, com a colaboração do Instituto de Turismo de Macau.
Dia 1
Ficção, 2017, 135′, DCP
Argumento: Teresa Villaverde
Fotografia: Acácio de Almeida
Som: Vasco Pimentel
Montagem: Rodolphe Molla
Com: João Pedro Vaz, Alice Albergaria Borges, Beatriz Batarda
Produtor: Teresa Villaverde
Produção: Alce Filmes
Países: Portugal, França
COLO, de Teresa Villaverde – UM FILME QUE NOS FALA DA FALÊNCIA, foi o filme da sessão de abertura e esgotou os 830 lugares da sala Manuel de Oliveira . Na projeção, para além do público cinéfilo, realizadores, atrizes, atores, produtores, técnicos, esteve o primeiro ministro António Costa. Em registo de piada com a irreverência usual em cerimónias de abertura de festivais de cinema, foi apresentada a edição e dadas as boas vindas ao público e aos participantes e, aproveitando a presença do 1º ministro, foi sugerido que uma geringonça oleada e funcionar, sabe seguramente que investir 2% do orçamento geral do estado na cultura, é a condição necessária para  tornar efetivamente ativo e dinâmica o sector, para ultrapassar a percepção geral das políticas públicas da cultura como um exercício sobre o supérfluo,  o não necessário,  os foguetes que se estoiram no calendário das festas ou eleitorais, mas sim atividade necessária para a continuidade da afirmação do capital simbólico e imaterial de Portugal no mundo. No caso do cinema, é a possibilidade de muitas e talentosos profissionais trabalharem, afirmando o papel central do cinema no dialogo do mundo contemporâneo, no desenvolvimento das cidades como espaços criativos, alavancar esta arte/indústria para patamares com maior desenvolvimento e retorno, também financeiro. COLO é um filme que continua o universo cinematográfico da realizadora, onde o tempo da adolescência é central, e os movimentos de autónoma e aproximação ao real normativo são de confronto, incompatibilidade, sofrimento, mágoa, desencanto, revolta. No filme COLO, que teve estreia mundial na competição oficial do último Festival de Berlim, a trama narrativa desenrola-se seguindo o quotidiano de uma família jovem e suburbana da baixa classe média em desintegração em resultado da fragilidade e ausência de emprego. Mas cinematografia de Teresa Villaverde tem a sua vitalidade no não abdicar do habitar do poético, do trabalho pictórico na composição das linhas e mise-en-céne dos planos,  nas relação das personagens com o espaço e com o tempo em que movem.  No texto de apresentação, é escrito “ ... filme, sempre à beira de explodir, que nos recorda do direito fundamental à felicidade.”                                                        
 A felicidade é uma coisa estranha, mas quando nem dinheiro há para a conta da eletricidade, mesmo que a capacidade de fantasiar jantares à luz de velas e imaginar quotidianos em séculos anteriores à sua invenção seja ativada, ser feliz começa a ser coisa muito distante, um exercício condenado ao insucesso. O encanto cinematográfico deste filme irrompe da sua construção no fio da navalha. Embora seja visível a construção narrativa dos 3 atos, é anulado o conforto narrativo de seguir uma personagem principal, sim é filha adolescente, sim é a amiga adolescente da filha, sim é o pai, sim é a mãe.  Ou seja, temos quatro personagens principais. É possível, dar centralidade à figura da mulher que também é mãe, que também é esposa, que também trabalha, que é quem cuida, que é quem ousa sobreviver e organizar um universo que desaba. Mas se ser mulher neste tempo e neste contexto é tudo isto; ser o eixo, o lugar ómega e alfa, é humanamente impossível ser super-mulher,  e o colapso é inevitável.                                                    
COLO é um filme lento, que se anuncia no plano inicial do beijo e separação da filha adolescente e namorado, instalasse e ganha singularidade estética cinematográfica quando se abre a roturas na racionalidade narrativa, se liberta e abre à errância e falência dos personagens num mundo em perda, mas que ainda assim sobrevivem e, talvez, venham a ganhar novas possibilidades de vida.

Dia 2




CIAO CIAO , filme de Song Chuan
Competição Internacional

Ficção, 2017, 83′, DCP
Argumento: Song Chuan
Fotografia: Li Xuejun
Som: Gao Yuan
Montagem: Jean-Marie Lengellé, Song Chuan
Com: Liang Xueqin, Zhang Yu, Hong Chang
Produtor: Guillaume de la Boulaye
Produção: Zorba Production
Países: França, China
 VERDE, VERMELHO, CASTANHO DOURADO, é impossível ficar-se indiferente à beleza formal deste drama, à la Tennesse Wiliams, que se joga na força plástica entre a escala e beleza imensa das montanhas, céus  e vales da terra mãe, e os planos aproximados aos corpos e grandes planos do rosto da sensual e bela protagonista.
Mas a vida dos homens e mulheres novos e velhos neste tempo contemporâneo que o filme partilha e constrói com cada um na experiência estética de cada projeção.
 É a fala do desejo de mundo, da visão da liberdade e possibilidades em aberto que cidade oferece nos  sonhos e desejos dos jovens adultos numa aldeia no interior da grande China.
 A tensão entre o antigo e o moderno, o ancestral e a vanguarda, é vivido na  construção e dinâmicas sociais do real na aldeia onde a imagem perante o outro, a tradição e a hierarquia, são forças nucleares que laçam e seguram uma cultura milenar em que os filhos devem respeito aos pais e ter presente esse tempo que chegará, em que a sua função social é a de cuidadores, aqueles que zelam para que uma velhice tranquila, serena, em paz, seja vivida.  Mas a aldeia não está isolada do mundo moderno, as redes de satélite asseguram o sinal de antena nos telemóveis, e nos diferentes ecrãs fixos ou móveis, como resistir à pulsão do desejo, à liberdade e anonimato dos corpos que a grande cidade oferece, é isso possível?
 O filme começa com  a protagonista, jovem mulher moderna que está a chegar a casa dos pais vinda da grande metrópole de Cantão. Faz-se acompanhar pela sua mala e sapatos Louis Vuitton e lenço Hermès. A sua presença agita um pouco  o quotidiano da pequena comunidade, onde os homens jovens jogam , bebem, e frequentam mulheres que vendem sexo. Ela está desejosa de voltar à cidade, mas os pais têm um plano diferente: casá-la com o filho de um homem rico quem mantem relações de negocio, e mãe uma relação sexual transgressiva, escondida da claridade da aldeia.  Na deslumbrante paisagem rural chinesa a camera próxima dos rostos e dos corpos dá-nos a interioridade da vida, o desejo e a contenção, os códigos  sociais de um mundo onde sangue, honra, hierarquia não são conceitos vagos mas práticas que facilmente podem conduzir ao abismo da morte. De notar a banda de som coadjuvante para esta mistura de corpos, paisagem, desejo, transgressão e convenção, neste filme perfeito para esta fala no contemporâneo que opõe os desejos de duas Chinas, a rural e a urbana.