A UMA HORA INCERTA. Há fotografias que são toda uma cultura de organização, o programa de toda uma máquina burocrática, a visão doméstica e internacional de um Estado. Um uniforme de escola feminino e duas tranças que caiem simetricamente numa face adolescente quase sempre são suficientes para evocar Lolita de Vladimir Nabokov. Um plano magistralmente iluminado de uma parede com a foto/ícone de Oliveira Salazar afirma o primeiro parágrafo, e Joana Ribeiro, bem fotografada, como aliás todo o filme por Mário Barroso que mais uma vez assina um trabalho brilhante, o segundo. A Uma Hora Incerta, a segunda longa metragem de Carlos Saboga também autor do argumento, é um filme com uma "mise-en-sène/ playing on stage" de grande rigor formal e elevada qualidade estética que constrói através e com as personagens, num casting também ele irrepreensível, uma narrativa que nos leva ao mundo Português de Salazar no contexto de uma Europa num dos momentos de maior tragédia da sua história, a II Guerra Mundial. Tudo acontece num excelente décor, um hotel fechado, o que demonstra uma vez mais a relevância do fora de campo na construção cinematográfica, que é hoje, 115 anos depois da invenção do cinema, o lugar provável da maior cumplicidade do cinema com o público. Chegou ontem a sala, aos territórios da visibilidade, pela mão de todos aqueles que o fizeram e aqueles que apoiaram a sua execução. JOANA RIBEIRO, PAULO PIRES, PEDRO LIMA, FILIPA AREOSA, ANA PADRÃO, JOANA VERONA, JUDITH DAVIS, GRÉGORIE LEPRINCE-RINGUET, constituem o elenco e estão, todos, actores e técnicos, produtor, realizador, director de fotografia, de parabéns. A UMA HORA INCERTA é mais um excelente filme Português em sala.
http://www.aumahoraincerta.com
Textos breves sobre filmes e cinema. O cinema, a arte/industria de massa do mundo contemporâneo no seu continuo trabalho de criação e revelação do real e do imaginário, com enfoque nos filmes do "modelo de produção independente", e breves incursões a filmes do modelo de produção no "sistema indústria". MATÉRIA ECRÃ tem como objecto primeiro a produção de filmes em Portugal e a contaminação do cinema na expressão artística contemporânea.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
quarta-feira, 11 de março de 2015
DEMOCRACIA E CIBERVIGILÂNCIA GLOBAL. CITIZENFOUR
Confrontos de Poder, democracia e cibervigilância. CITIZENFOUR. Os cinemas Medeia Filmes acabam de colocar em sala o filme de Laura Poitras. Trata-se de um excelente filme onde a fronteira documentário e ficção ( aceitando que existe) é assumidamente cruzada, isto é, o filme assume dar visibilidade à sua mecânica ficcional de construção, ao fabricar do documentário, bem como assume claramente um olhar determinado e autoral, o da realizadora Laura Poitras e do protagonista do filme Edward Snowden.
O tema da cibervigilância global está na agenda das democracias modernas.
Hoje a tecnologia disponível leva a que todo o cidadão possuidor de telemóvel e ligado à internet, de passe social, de cartão de identidade bancária, possa, através do cruzamento desses meta-dados, ser vigiado 24 horas por dia durante toda a sua vida.
Para além disso, o cruzamento e análise de meta-dados, que leva à criação de perfis em diferentes áreas de atividade, da saúde ao marketing político, possibilitando a identificação de estímulos para comportamentos previsíveis (dentro das margens de erro definidas nas na construção das análises) é a realidade do nosso quotidiano, em particular no que se refere à identificação de estímulos de compra.
O que está em causa é fracturante porque coloca a ideia de liberdade, e a sua associação à ideia de privacidade, em confronto a prática contemporânea vigente nos Estados, que paradoxalmente, são o garante em última instância dessa liberdade e privacidade.
É impossível disfarçar o desconforto, e esconder a discussão em qualquer gaveta de assuntos não convenientes.
Neste sentido o filme, como sempre tem acontecido com o cinema, reforça e transporta para a agenda pública o tema, o que obriga à discussão na agenda política. Só por isso, o que não é pouco, a recepção do filme e a sua exibição merece o melhor dos acolhimentos.
É claro que o facto de o cidadão, ter consciência, conhecimento desta realidade, obriga e sujeita a mesma realidade a transformações, Citando Foucault, “O poder está em toda parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares” ( 1988, p. 89).
Como pode a democracia, os sistemas democráticos, conviver com a realidade da cibervigilância global, é a pergunta. A resposta tem de ser a sociedade democrática a encontrar.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
ECRÃ DIGITAL a CASA DOS ESPELHOS DA HIPER REALIDADE
Duas características da identidade do digital são a sua característica rizomática, plástica, bem como a velocidade, não só do que chega, é, ou vai permanecendo, mas do que se transforma. Vem isto a propósito da materialidade do ecrã, ou dos ecrãs visto que hoje, como já foi afirmado por Gilles Lipovetsky e Jean Serrooy, vivemos a proliferação dos ecrãs, ou a sociedade do ecrã global e, se assim é, foi o digital que o permitiu. Paradoxalmente, a esta proliferação de ecrãs, não corresponde ou não equivale a uma proliferação criativa, mas à redução do universo criativo, pela repetição do mesmo modelo nos diferentes ecrãs, ainda que com as necessárias adaptações a cada ecrã especifico, formato, tamanho de letra ou imagem, duração temporal, etc. Ou seja, adaptações de forma do mesmo modelo de conteúdo aos vários formatos de ecrã em constante proliferação.
A materialidade assume nos ecrãs contemporâneos a sua condição eléctrica, rizomática, a super velocidade, e não já a matéria densa, o peso dos matérias, terra, madeira, ferro, água ou fogo. Tudo é agora sempre a representação da própria matéria, pelo que, com propriedade, é o simbólico a verdade material que ocupa e se revela no mundo dos ecrãs, que é o mundo em que vivemos. Ainda que a matéria permanece no movimento continuo do corpo dos electrões, no vai e vem constante das descargas eléctricas. É uma materialidade construída das relações da inter materialidade.
Esta nova condição visivel da matéria, aponta para uma vasta área de pesquisa possível em que a tradicional dicotomia natureza - artificialidade e também espirito - matéria vão encontrar novas formulações e, arrisco afirmar, ainda que no momento de forma intuitiva, a anulação dessa velha dicotomia, abrindo espaço a um novo momento do pensamento Ocidental a que chamo O Pós-Renascimento. Mas este é um assunto em work progress e não é o agora o momento para muito mais do que esta breve sua enunciação.
O tema deste Ecrã Digital como Casa dos Espelhos da Hiper Realidade é a construção e fragmentação do real, modelo de abordagem construtivista nas ciências sociais e humanas, que nos fala sobre a nossa percepção do real enquanto construção, em grande parte mediada, e que, no que se refere à construção do espaço da opinião pública, e também da construção cultural, essa mediação é em grande parte feita pelos conteúdos que invadem todos os ecrãs que nos envolvem.
A questão que importa reflectir - mais do que obter respostas com pretensões totalizantes -, é sobre o qual o papel da produção de conteúdos, e do cinema em particular, nesta segunda década do séc. XXI, num mundo de elevada complexidade, com fluxos constantes e em quantidades não quantificáveis de informação, entre pessoas e organizações, de todas e em todas as geografias do globo.
A internet está a mudar configurações sociais e políticas no mundo.“A Internet não é um instrumento de liberdade, nem é uma arma para exercer o domínio unilateral. A experiência da Singapura é um bom exemplo. Dirigida por um Governo forte e capaz, Singapura abraçou plenamente a modernização tecnológica como instrumento de desenvolvimento. Simultaneamente, está considerada como um dos sistema autoritários mais sofisticados da História. Para tentar conciliar modernização e autoritarismo, o Governo de Singapura generalizou o usa da Internet entre as seus cidadãos, mantendo ao mesma tempo o controlo político sobre a sua utilização, exercendo censura sobre os fornecedores de serviços Internet. Não obstante, a investigação de Ho e Zaheer (2000) demonstra como, mesmo em Singapura, a sociedade civil foi capaz de utilizar a Internet para ampliar o seu espaço de liberdade, articular a defesa dos direitos humanos e propor pontos de vista alternativos no debate político. “ 1
A importância do cinema independente é, a possibilidade de este existir liberto dos “modos operandi”, regulados e institucionalizados, de poder produzir narrativas ou experiências de comunicação cinematográfica sobre todos os aspectos da realidade social e humana, e não apenas a repetição com novas roupagens dos modelos testados, conhecidos, e capazes de gerar lucro.
Se fizermos o enfoque no suporte, no media, temos claramente uma nova possibilidade de distribuição que se pode caracterizar pela interactividade, rapidez, hiper-texto, multimédia. Uma maior facilidade de segmentação de públicos, a possibilidade de alojamentos diferenciados, redes sociais, youtube, sites dos órgãos de comunicação, blogger esfera, ecrãs moveis. O que implica, necessariamente, um conjunto de novas técnicas para a produção, ao nível da construção das narrativas.
Se fizermos o enfoque no suporte, no media, temos claramente uma nova possibilidade de distribuição que se pode caracterizar pela interactividade, rapidez, hiper-texto, multimédia. Uma maior facilidade de segmentação de públicos, a possibilidade de alojamentos diferenciados, redes sociais, youtube, sites dos órgãos de comunicação, blogger esfera, ecrãs moveis. O que implica, necessariamente, um conjunto de novas técnicas para a produção, ao nível da construção das narrativas.
É a proliferação de ecrãs uma mudança de paradigma? Não necessariamente. Bastará um olhar empírico sobre a produção mainstream nos Novos e Velhos Media, para afirmar que estes são instrumentos centrais para a afirmação e manutenção dos discursos do Poder. E bastará também percorrer as centenas de canais disponíveis e ao alcance de clik no botão do comando, para verificar a dificuldade de encontrar novos conteúdos, ou seja, encontrar mais do que a repetição do mesmo modelo.
Sabemos hoje, à uma linha de investigação na sociologia do conhecimento que o afirma, que os média são a mais eficaz máquina para a produção massificada do bio-político, homens e mulheres da nossa contemporâneadade cujas percepções e construções do real, são por eles mesmos objecto de auto-censuras regulatórias, tornando-se sujeitos auto-submetidos aos discursos dominantes.
A multiplicidade de écrans é mais uma casa, onde se reflectem e encontram e multiplicam, os milhões de espelhos da hiper-realidade, mas em quase todos, apenas é visível simulacros do diferente.
Ainda assim, a nossa casa comum, cheia de fragmentos, desarrumada, civilizada, normativa, indisciplinada, racional e selvagem, com espelhos inteiros e partidos, desde os das casas dos espelhos das feiras populares aos espelhos do palácio de Versailles que podem até, por vezes, reflectir lustres construídos de tampões, está mais rica, e cabe ao autor, a sempre difícil tarefa da construção da obra.
Ainda assim, a nossa casa comum, cheia de fragmentos, desarrumada, civilizada, normativa, indisciplinada, racional e selvagem, com espelhos inteiros e partidos, desde os das casas dos espelhos das feiras populares aos espelhos do palácio de Versailles que podem até, por vezes, reflectir lustres construídos de tampões, está mais rica, e cabe ao autor, a sempre difícil tarefa da construção da obra.
Bibliografia
- Castells, Manuel; THE INTERNET GALAXY REFLECTIONS ON THE INTERNET. BUSINESS AND SOCIETY, pág. 197, Oxford University Press © 2001
- http://www.citi.pt/estudos_multi/ana_cristina_camara/interactividade.html
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