Confrontos de Poder, democracia e cibervigilância. CITIZENFOUR. Os cinemas Medeia Filmes acabam de colocar em sala o filme de Laura Poitras. Trata-se de um excelente filme onde a fronteira documentário e ficção ( aceitando que existe) é assumidamente cruzada, isto é, o filme assume dar visibilidade à sua mecânica ficcional de construção, ao fabricar do documentário, bem como assume claramente um olhar determinado e autoral, o da realizadora Laura Poitras e do protagonista do filme Edward Snowden.
O tema da cibervigilância global está na agenda das democracias modernas.
Hoje a tecnologia disponível leva a que todo o cidadão possuidor de telemóvel e ligado à internet, de passe social, de cartão de identidade bancária, possa, através do cruzamento desses meta-dados, ser vigiado 24 horas por dia durante toda a sua vida.
Para além disso, o cruzamento e análise de meta-dados, que leva à criação de perfis em diferentes áreas de atividade, da saúde ao marketing político, possibilitando a identificação de estímulos para comportamentos previsíveis (dentro das margens de erro definidas nas na construção das análises) é a realidade do nosso quotidiano, em particular no que se refere à identificação de estímulos de compra.
O que está em causa é fracturante porque coloca a ideia de liberdade, e a sua associação à ideia de privacidade, em confronto a prática contemporânea vigente nos Estados, que paradoxalmente, são o garante em última instância dessa liberdade e privacidade.
É impossível disfarçar o desconforto, e esconder a discussão em qualquer gaveta de assuntos não convenientes.
Neste sentido o filme, como sempre tem acontecido com o cinema, reforça e transporta para a agenda pública o tema, o que obriga à discussão na agenda política. Só por isso, o que não é pouco, a recepção do filme e a sua exibição merece o melhor dos acolhimentos.
É claro que o facto de o cidadão, ter consciência, conhecimento desta realidade, obriga e sujeita a mesma realidade a transformações, Citando Foucault, “O poder está em toda parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares” ( 1988, p. 89).
Como pode a democracia, os sistemas democráticos, conviver com a realidade da cibervigilância global, é a pergunta. A resposta tem de ser a sociedade democrática a encontrar.

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