sábado, 17 de junho de 2017

CIDADE ECRÃ
Rui Filipe Torres

37 anos depois o FANSPORTO

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            Está a terminar o FANTAS’2017 que nesta edição anunciou como linha de programação O CINEMA DOS NOSSOS TEMPOS.
            À cidade do Porto chegaram filmes do Laos, Albania, Egipto, Israel, Argentina, Brasil, EUA, entre outros países e cinematografias.
            Assume-se como Festival de cinema generalista com especial atenção ao cinema de género. Dá cobertura à grande extensão de filmes produzidos na área do Fantástico.
            Não deixa de ser um forte sinal do momento que o mundo vive, a ligação forte ao real em muitos dos filmes programados nesta 37ª edição.
            O Fantasporto é um de um dos mais importantes festivais de cinema Fantástico no mundo, género que dá cobertura a filmes com modelos de produção e estratégias narrativas diversas que vai da ficção científica, á comédia comédia, terror, as filmes “zombies”, ao “gore”, entre outras tipificações e, como sempre, nesta relação própria do cinema consigo mesmo, aos filmes híbridos em que os subtemas do género se misturam, recriam, apoderando-se de códigos que aparentemente lhe eram exteriores.
           
            Antes de, em forma próxima de breves notas de diário traçar um retrato a esta edição, sem pretensão de objectividade de jornalista científico, a fazer no próximo artigo, segue um texto onde, por voz própria, a comunicação do Festival nos conta como em 1981 esta aventura que se chama Fantasporto começou.

    Como nasceu o Fantasporto?
            À mesa do café Luso, na praça Carlos Alberto, a cinquenta metros do que foi durante muitos a catedral do cinema no Porto, o cinema Carlos Alberto, na altura com o nome pomposo de Auditório Nacional Carlos Alberto. Na mesa estavam a Beatriz Pacheco Pereira, o Mário Dorminsky, e o pintor José Manuel Pereira. Os primeiros queriam mostrar filmes, o último, prematuramente falecido, queria expor a sua pintura. Dois anos depois junta-se à equipa o António Reis. 
            O primeiro apoio financeiro foi do Instituto Português do Cinema, hoje ICA, no montante de 15 contos.

            Das “majors” ao cinema independente? Ou o sentido foi inverso?
            Desde o inicio o Fantasporto mostrou as maiores produções europeias, filmes norte americanos de “majors”.  Em 1981, apresentou a primeira longa metragem de animação chinesa.
            Sem rejeitar filmes de baixos orçamentos, produção independente ou experimental, o Fantasporto é desde o inicio uma montra de técnicas de vanguarda. Muitos dos filmes apresentados são Oscares, Goyas, Césars, Baftas.
            Para além da programação direta junto das “majors”, o Fantasporto tem uma colaboração privilegiada com produtores e distribuidores portugueses.

            Porquê o género Fantástico?
            Na altura, em 1981, o género era quase desconhecido. O festival nunca foi apresentado como exclusivamente fantástico. 
            O “Blade Runner”, só foi produzido em 1982, um ano depois da primeira edição do Fantasporto, onde teve  ante estreia europeia.
            A recessão económica impunha, então,  uma fuga à realidade. O pós-25 de Abril permitia a abertura do cinema do resto do mundo a Portugal, já não tínhamos a censura.
            Tinhamos a ideia de que havia um enorme potencial do imaginário a explorar, desde Murnau aos clássicos do neo-romantismo francês. Havia ainda o Maravilhoso na literatura, na pintura, nos filmes de todos os tempos. Os cruzamentos com outras artes começaram também logo na primeira edição do festival
            Georges Méliès e todos os realizadores do passado, e em todos os países, tinham favorecido a imaginação através da fantasia. Nem Akira Kurosawa nem Manoel de Oliveira ( “O Estranho Caso de Angélica”) escaparam à moda.
            Hoje as grandes produções  mundiais ainda favorecem o género: “ O Senhor dos Anéis”, “Matrix”,  “ Avatar”, “Harry Poter” , etc, são a prova que todos conhecem.

            Festival generalista agora, porquê?
            Porque, depois do surto dos anos 80, o cinema Fantástico sofreu uma crise qualitativa, e havia que manter o nível da programação. O festival alargou os seus horizontes para todas as temáticas, no que foi seguido pela maioria de festivais do fantástico na época. Foi criada a Semana dos Realizadores, inicialmente só para os primeiros e segundos filmes.
             Pedro Almodóvar foi visto pela primeira vez em Portugal com o seu filme “Matador”. Em 2002, perante a crescente importância do cinema oriental, surgiu a Secção Oficial Orient Express.
            Hoje, muitas dos filmes vistos nas retrospectivas são inéditos em Portugal, e resultam de uma programação organizada em colaboração com os Ministérios da Cultura e Institutos do Cinema dos países envolvidos.

            A promoção de um evento cultural
            O Fantasporto é uma referencia no mercado do Filme no Festival de Cannes, com um stand próprio onde divulga o festival e o país. Esta ação no maior festival de cinema e mercado do mundo, inclui uma intensa campanha nas revistas ; “Variety, ( que inclui o Fantasporto na lista dos 25 melhores festivais do mundo e envia correspondente), é apenas um exemplo, televisões, distribuidores , etc.
            O festival tem das maiores coberturas mediáticas de eventos nacionais.



Uma comédia antes de adormecer

A noite de ontem terminou com a projeção no grande auditório do filme  NIGHT OF LIVING DEB.





            Uma comédia romântica e um “apocalipse de Zombies”, parece ser uma mistura com sucesso improvável, se a isto misturar uma leve crítica de costumes e denúncias ambientalistas, ainda o parecerá mais.  Mas é isso que acontece neste filme de 2015, produção dos EUA, realizado e escrito por Kyle Rankin.
             A atriz Maria Thayer, tem aqui uma interpretação divertida, fresca, capaz de levar ao riso o mais sorumbático dos espectadores.
            O filme dura 85 minutos. Na verdade os zombies são uma figuração com dimensão de epidemia, todo o interesse do filme resulta da interpretação da atriz e do ator com quem contracena, este a protagonizar o cliché do “bonzão” e, no caso, filho de família de elite ambientalmente contestatário. O pai é um poderoso homem de negócios, controla a água da cidade, convive com as altas esferas do poder político executivo. Tudo é caricatura, um jogo descarado e frontal que procura a cumplicidade do espectador num humor vários furos acima do usualmente praticado no cinema que se assume, sem complexos, como entretenimento e complemento à venda de pipocas. É isso que torna o filme interessante e eficaz, capaz da surpresa do riso.


 OS CÃES GUERREIROS

            É já no dia 25, sábado, que tem ante-estreia mundial no FANTASPORTO2017 o filme do Jorge António, a “ILHA DOS CÃES”, na sessão das 18h30m do grande auditório do Rivoli.

            O filme arranca, afirmando uma das mais belas premissas da compreensão hermenêutica do mundo, a da sua apreensão metafísica irredutível ao positivismo da razão cartesiana. Começa com um belíssimo céu azul e nuvens brancas que nos aproximam do pico de uma montanha em ilha tropical. Em simultâneo, em off, alguém nos diz numa língua estranha – Kimbundu ( a terceira língua mais falada de Angola na zona centro- norte, eixo Luanda –Malange e no Kwanza-Sul), que no mundo há mais mistério do que pensamos que possa haver. Essa voz que parece chegar de um tempo remoto, faz-nos lembrar, tornar consciente, o mundo como mistério impenetrável à total revelação.
            O texto off, transporta a voz profunda da África animista e dá-nos conta dos laços da civilização comuns, faz ecoar Shakespeare “ Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vã filosofia”.
            A “ILHA DOS CÃES”, tem um livro como de base da narrativa que se chama "Os Senhores do Areal", escrito em 1992 por Henrique Abranches (1932-2006). Escritor Angolano, com vasta obra literária e estudos etnográficos, e uma vida de atividade política intensa.
            O filme foi rodado com fundos públicos Portugueses, ganhou um concurso em 2011. Segundo o realizador Jorge António: “O filme começou por ser uma co-produção Portugal - Angola, mas as rodagens coincidiram com a crise do petróleo (que ainda hoje se mantém) e tivemos que optar por (ou não fazer o filme) ou redimensionar o guião e o mapa de Produção. Foi a Produtora Ana Costa que "salvou" o projecto com a mudança de cenário para S. Tomé e Príncipe.
            De Angola, existe apenas apoio institucional. Porque acabamos por filmar cenas em Luanda e no Deserto do Namibe”.
            Vi a projeção do filme na sala de misturas finais, uma sala de masterização  montada pelo António da Cunha Telles, por onde tem passado centenas de filmes, entre os quais a minha curta TUDO BEM e a longa CRIME ( estes filmados sem apoios públicos)  numa sessão em que para além de mim estava o Jorge António, o Pedro Góis – que é hoje o dono do estúdio – e o músico do filme José Castro.
            ILHA DOS CÃES fala-nos de dois tempos, paradoxalmente ou não, próximos e distantes, o tempo colonial e o do novo país independente e soberano. Por estranhos e inexplicáveis mistérios, as almas dos homens africanos que no retrato filmado no tempo colonial são tratados com a brutalidade da posse dos corpos e das ideias, quando se revoltavam e a punição derradeira da morte chegava, transmigravam para uma matilha de cães que viviam livres na ilha.
            Anos mais tarde, na actualidade, a ilha, território de beleza natural exuberante, é objecto de um projecto de construção imobiliária, um resort de luxo, e os cães revoltam-se, estão contra o novo domínio que está a chegar, — já não é o tirano do colonialista que obrigava ao trabalho braçal nas fazendas de café ou cacau, mas uma sociedade imobiliária.
             Há uma frase curiosa neste filme que o realizador assume como político, e que de alguma forte abra a uma nova perspectiva sobre o domínio do homem branco. O interessante cinematográfico é que a frase acompanha a materialidade da imagem, é dita pelo africano, quadro superior da empresa de construção: : —estou a tornar-me branco. No seu corpo de pele negra as manchas brancas ganham cada vez mais território.
            O filme levanta, ou pelo menos permite questionar neste tempo pós-colonial, o que é afinal o domínio do homem branco? Ou se quisermos, invertendo, o que é afinal a libertação do homem negro?
            Ao que parece, na ilha, os cães habitados por almas insubmissas, inventaram uma nova soberania, invisível, mas eficaz, as dos espíritos guardiões da natureza.
           

           
A ILHA DOS CÃES (2016)

Produção: Ana Costa
Realização: Jorge António
Argumento: Jorge António, Paulo Leite e Virgilio Almeida
Imagem: Tony Costa
Montagem: Filipe Roque do Vale
Musica: José Castro
Som: Pedro Góis
Figurinos: Silvia Grabowski
Efeitos Visuais: Pedro Louro

Com: Angelo Torres, Miguel Hurst, Nicolau Breyner, João Cabral, Ciomara Morais, José Eduardo, Daniel Martinho, Welket Bungué, Matamba Joaquim, Giovanni Lourenço, Miguel Sermão. Júlio Mesquita entre outros



terça-feira, 16 de maio de 2017

SÃO JORGE. CINEMA COM LETRA GRANDE EM TODOS OS FRAMES

SÃO JORGE. CINEMA COM LETRA GRANDE EM TODOS OS FRAMES

            CHEGOU esta semana a 26 salas este filme que Macau já conhece. É o vencedor do 1º festival internacional de Macau e, ao seu protagonista, foi atribuído o galardão para o melhor ator, no reconhecido festival internacional de cinema de Veneza, festival classe A, entre outros prémios em outros festivais. 






           O mundo é sempre a matéria dos filmes, mas há filmes em que essa fala se agiganta, nesse continuo de imagem em movimento em que o espaço e o tempo, a vida, mais do representação mimética do real se tornam o próprio real. No caso, revelando a profunda e heterodoxa devassidão da alegria natural dos corpos, o esforço imenso dos indivíduos neste contínuo esbracejar para a permanência do ato  de respirar, manter a cabeça fora de água, neste corpo e tempo social de dinâmicas submetidas ao ritmo da batuta das leis do mercado, o grande deus do contemporâneo, e único chefe de orquestra.
             SÃO JORGE, é um filme maior  de um  realizador que afirma o cinema como lugar da visibilidade do mundo.
            Filme belo e duro, expressão profunda das dinâmicas sociais da multidão em contínua luta pela permanência na vida,  materializada através da história do Jorge, o herói moderno, isto é, o anti-herói, aquele que entra em movimento não por decisão da sua vontade, mas porque as condições sociais, contextuais, em que submerge lhe impõem o movimento. SÃO JORGE, é cinema  de um  realizador que conhece  o mundo e o cinema no mundo.
           
            O espaço, o “em campo”, é central na construção dos filmes, ou pelo menos para a grande generalidade deles. No caso é. O trabalho de escolha dos décores é notável, trás ao ecrã os territórios das cidades invisíveis, não com o olhar decorativo do género telenovela, mas com o olhar do cinema,  enquanto matéria cinematográfica, temática e estética, unidade espacial capaz da produção de sentido. A direção de arte e o guarda roupa é irrepreensível, bem como cabelos e maquilhagem. É o que no cinema não há pormenores a mais nem a menos.
            O trabalho de camera, a luz, é igualmente notável. 
            O realizador conduz-nos com o seu personagem Jorge, pelos territórios da sobrevivência do amor e da dignidade a esforço de sangue, de morte, de dor. À guerra calada das multidões que nas horas antes do amanhecer limpam os escritórios dos edifícios luminosos de paredes de vidro. E também à luta dos que ousam o prazer do luxo da estética dos sabores e que sucumbem perante os compromissos do crédito. É o caso do cozinheiro patrão no restaurante de luxo, representado com grande maturidade, de forma empenhada e brilhante, pelo ator Gonçalo Waddington.
            Leva-nos com a vida do Jorge, um branco num bairro social onde a maioria étnica tem ancestralidade em África, no Brasil mestiço e nas novas migrações de leste. Um bairro que é uma comunidade de sobreviventes, que apreendem e sentem o mundo com a sua experiencia e o que as televisões transmitem, onde não há tempo para queixas e a dor tem de ser engolida a seco. 
            Dar socos e conseguir encaixa-los é a grande arte que pode permitir a claridade desejado lá mais à frente, um à frente sempre longe, mas ainda assim pelo qual se continua a correr, a caminhar, a sofrer, na tentativa de não sentir a condição da humilhação instalada nas paredes das casas inacabadas, em que os tijolos são  nervosos  ásperos cobertos a graffies.

            Jorge tem um filho, o Nelson, a ternura, o amor que envolve a relação dos dois é de uma beleza extrema, profundamente humana, imensamente comovente. Vive com ele no acanhado quarto onde os seus troféus de boxe tem o valor das estátuas dos santos das igrejas, são imagens ícones. O quarto fica no pequeno apartamento dos seus pais, são muitos os que por ali habitam.
            A casa da família do Jorge é uma versão contemporânea e suburbana desse outro filme enorme, “feios porcos e maus”, do Ettore Scola, produção de 1976. Mas o Marco Martins não tem a família como o núcleo da narrativa, é um dado, um contexto, mas não é o objecto do filme. É o Jorge e o seu mundo quem, ao longo de todo o filme, a camera segue, acompanha, por vezes antecipa.
            Susana, a mulher que é a mãe do Nelson, é uma emigrante Brasileira que saiu da casa dos pais do Jorge por não aguentar a forma como era tratada, mal tratada. Susana e Nelson, são  interpretações de enorme sensibilidade e equilíbrio.
            Susana quer-se afastar de tudo. Tem como projecto regressar ao Brasil com o filho de ambos. Jorge consegue dinheiro para alugar uma casa, só dessa forma será possível ter o filho e Susana consigo.
            Este é um filme que caracteriza bem o modelo atual de produção cinema independente. Filme híbrido, em que o documentário e a ficção estão presentes na mesma narrativa, com atores e não-atores  -   personagens que se representam a si mesmos na narrativa -  e no qual, a discussão cinema arte cinema comercial, não se coloca, está ultrapassada logo à partida.  É cinema ponto.
            Filme a todos os níveis de análise notável. A ante-estreia na Cinemateca teve duas sessões na sala Félix Ribeiro, dado que muitos, como foi o meu caso, não quiseram adiar o encontro com o filme na sala escura das revelações da materialidade do mundo.
            A não perder.

País :  Portugal.  Ano de produção: 2016. Realizador: Marco Martins. Duração: 1h52m