terça-feira, 13 de outubro de 2015

A UMA HORA INCERTA

A UMA HORA INCERTA. Há fotografias que são toda uma cultura de organização, o programa de toda uma máquina burocrática, a visão doméstica e internacional de um Estado. Um uniforme de escola feminino e duas tranças que caiem simetricamente numa face adolescente quase sempre são suficientes para evocar Lolita de Vladimir Nabokov. Um plano magistralmente iluminado de uma parede com a foto/ícone de Oliveira Salazar afirma o primeiro parágrafo, e Joana Ribeiro, bem fotografada, como aliás todo o filme por Mário Barroso que mais uma vez assina um trabalho brilhante, o segundo. A Uma Hora Incerta, a segunda longa metragem de Carlos Saboga também autor do argumento, é um filme com uma "mise-en-sène/ playing on stage" de grande rigor formal e elevada qualidade estética que constrói através e com as personagens, num casting também ele irrepreensível, uma narrativa que nos leva ao mundo Português de Salazar no contexto de uma Europa num dos momentos de maior tragédia da sua história, a II Guerra Mundial. Tudo acontece num excelente décor, um hotel fechado, o que demonstra uma vez mais a relevância do fora de campo na construção cinematográfica, que é hoje, 115 anos depois da invenção do cinema, o lugar provável da maior cumplicidade do cinema com o público. Chegou ontem a sala, aos territórios da visibilidade, pela mão de todos aqueles que o fizeram e aqueles que apoiaram a sua execução. JOANA RIBEIRO, PAULO PIRES, PEDRO LIMA, FILIPA AREOSA, ANA PADRÃO, JOANA VERONA, JUDITH DAVIS, GRÉGORIE LEPRINCE-RINGUET, constituem o elenco e estão, todos, actores e técnicos, produtor, realizador, director de fotografia, de parabéns. A UMA HORA INCERTA é mais um excelente filme Português em sala.
http://www.aumahoraincerta.com







quarta-feira, 11 de março de 2015

DEMOCRACIA E CIBERVIGILÂNCIA GLOBAL. CITIZENFOUR


Confrontos de Poder, democracia e cibervigilância. CITIZENFOUR.  Os cinemas Medeia Filmes acabam de colocar em sala o filme de Laura Poitras. Trata-se de um excelente filme onde a fronteira documentário e ficção ( aceitando que existe) é assumidamente cruzada, isto é, o filme assume dar visibilidade à sua mecânica ficcional de construção, ao fabricar do documentário, bem como assume claramente um olhar determinado e autoral, o da realizadora Laura Poitras e do protagonista do filme Edward Snowden.  
O tema da cibervigilância global está na agenda das democracias modernas. 
Hoje a tecnologia disponível leva a que todo o cidadão possuidor de telemóvel e ligado à internet, de passe social, de cartão de identidade bancária, possa, através do cruzamento desses meta-dados,  ser vigiado 24 horas por dia durante toda a sua vida.
Para além disso, o cruzamento e análise de meta-dados, que leva à criação de perfis em diferentes áreas de  atividade, da saúde ao marketing político, possibilitando a identificação de estímulos para comportamentos  previsíveis (dentro das margens de erro definidas nas na construção das análises) é a realidade do nosso quotidiano, em particular no que se refere à identificação de estímulos de compra.
O que está em causa é fracturante porque coloca a ideia de liberdade, e a sua associação à ideia de privacidade, em confronto a prática  contemporânea vigente nos Estados, que paradoxalmente, são o garante em última instância dessa liberdade e privacidade.
É impossível disfarçar o desconforto, e esconder a discussão em qualquer gaveta de assuntos não convenientes.
Neste sentido o filme, como sempre tem acontecido com o cinema, reforça e transporta para a agenda pública o tema, o que obriga à discussão na agenda política. Só por isso, o que não é pouco, a recepção do filme e a sua exibição merece o melhor dos acolhimentos.
É claro que o facto de o cidadão, ter consciência, conhecimento desta realidade, obriga e sujeita a mesma realidade a transformações, Citando  Foucault,  “O poder está em toda parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares” ( 1988, p. 89). 

Como pode a democracia, os sistemas democráticos, conviver com a realidade da cibervigilância global, é a pergunta. A resposta tem de ser a sociedade democrática a encontrar.