sexta-feira, 3 de maio de 2019

DIAMANTINO e o cinema Bimby


DIAMANTINO e o cinema Bimby


            Estreou a 4 de Abril em 22 ecrãs em Portugal, o filme vencedor do grande prémio da crítica do festival de cinema de Cannes. DIAMANTINO, 96 minutos, já passou em perto de 60 Festivais Internacionais, entre estes; Toronto International Film Festival, London BFI, New York Film Festival, ou Cannes como referido.
            Teve estreia comercial de cinema no Brasil e em França. Em Portugal, nos primeiros 4 dias de exibição em sala, foi visto por 3.898 espectadores,  a  que corresponde a receita bruta de  20.967,04 euros. É provável que para além dos elogios da  crítica tenha sucesso comercial.

            Quando o filme começa, a história já aconteceu e o protagonista narra-a com o recurso quase constante à voz-off, é uma viagem por dezenas de excentricidades esta em que acompanhamos Diamantino, é esse o nome do protagonista, e que nos narra os momentos próximos da falência da sua carreira de hiper-estrela do futebol mundial.
            Fora dos relvados procura de um novo sentido para a vida, e, apesar de só querer fazer o bem, como pelo próprio nos é dito, ou talvez por isso, entra numa odisseia delirante construída como alguns pratos na cozinha doméstica contemporânea.
            A construção narrativa resulta de uma mistura de ingredientes como nas máquinas de cozinha Bimby;  é introduzida uma ou duas cenas que gravitem em torno do neofascismo, mais duas ou três, em torno da crise dos refugiados, um nó narrativo em torno da ficção científica aplicada à modificação genética, ao trans-género, duas ou três ideias com capacidades especulativas e facilitadoras do género comédia, a ideia parola e simultaneamente multimilionária do jogador de futebol de topo mundial caído em desgraça, carrega-se no botão, a coisa mistura, e saí a narrativa. Sai sempre uma coisa qualquer. Saí uma história com um tempo narrativo, em que questão da verosimilhança, do verosímil, sendo sempre um aspecto central para a adesão do espectador ao que vê e vive no ecrã, não é a questão central.  Ou pelo menos se tomarmos a questão da verosimilhança enquanto cópia, reprodução do modelo.              Estamos em território do cinema onde por definição tudo é possível, e mais do que um mimetismo do real nos territórios da ficção, o que se precisa para admissibilidade por parte do espectador da possibilidade do real,  são pequenos toques, lugares de contacto, raspões, ou, se possível, toques em profundidade perfurando a carne e chegando ao osso da realidade, o cerne ou átomo primeiro.  Acontece que este cerne da realidade em territórios do cinema não tem a obrigatoriedade de ser uma imagem reprodutora a realidade pré-existente ao filme.
            O cinema tem esta coisa fantástica, todos nós perante o ecrã nos disponibilizamos para viagem, e aceitamos outro regime estético do que o da colagem ou da figuração do real. 
            E é aqui que o filme DIAMANTINO se joga, e, paradoxalmente se ganha, e se perde. Há elogios rasgados em vários jornais; “Divertimento leviano e seriedade ideológica” jornal Público,  “É um delírio de monta raro no cinema Português”, jornal Expresso, “Diamantino é um objecto de uma energia nova no cinema Português”, estamos próximos, mas não tanto assim, do genial cinema do Federico Felini, ou caminhado na direção do país do Brexit, e de outra estética cinematográfica, dos filmes Monty Python.  O que por si não retira qualquer valia ao filme, mas mais do que a singularidade da obra,  DIAMANTINO confirma um dos caminhos que o cinema contemporâneo tem vindo a percorrer,  o da sucessão episódica de acontecimentos numa estrutura narrativa fragmentada de múltiplas ideias que chegam e partem sem particular discussão ou profundidade.
            Diamantino confirma a tendência do cinema contemporâneo neste trabalhar da eficácia da desconexão, ou nas palavras de Jaques Rancière, na tradução de José Mirando no “O Espectador Emancipado”:

            “ ... a eficácia estética significa propriamente a eficácia da suspensão de toda e        qualquer relação direta entre a produção das formas da arte e a produção de    um efeito determinado sobre um público determinado....uma rotura entre as            produções das diversas modalidades artísticas de saber-fazer e fins sociais       definidos, entre formas sensíveis, as significações que nelas podemos ler e os          efeitos que podem produzir. Dizendo de outra maneira, trata-se da eficácia de            um dissentimento. O que entendo por dissentimento não é um conflito de   ideias ou de sentimentos. É o conflito de vários regimes de sensorialidade. “

            Afirmam os realizadores Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt,  que nesta sua primeira longa-metragem tinham como assunto “...fazer um filme principalmente sobre uma pessoa muito rica que adotava uma pessoa muito pobre e os problemas políticos inerentes a essa situação”. É uma premissa válida como qualquer outra, seguramente uma linha narrativa de grande potencial para o desenvolvimento de uma telenovela, género que também  precisa, e muito, de  renovação. No filme Diamantino, os criadores do produto telenovela podem encontrar um toque seminal para um caminho onde a comédia excêntrica se torne núcleo estético central no desenvolvimento da narrativa. Se assim vier a acontecer estaremos num processo ao contrário do caminho percorrido pelo Pedro Almodóvar, que tão exemplarmente explorou o Kistch na filmografia, partindo muitas das vezes do pequeno ecrã,  ampliando a dimensões gigantes a intensidade dramática das personagens nas diversas situações e ambientes e de um quotidiano urbano vivido nos inícios de uma “Madrid  me mata”.

            As linhas de filiação no cinema contemporâneo são sempre muitas e diversas, um dos filmes que pode ser convocado a propósito do DIAMANTINO , embora com outro tema e um outro exercício, mas onde o “excêntrico” é o filão explorado é o BORAT, de 2007.
            O filme de Larry Charles; Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan,  produção dos EUA.  Estreou em 837 salas nos Estados Unidos, e no primeiro fim de semana fez 26,4 milhões de dólares.
            Neste filme, Borat Sagdiyev (Sacha Baron Cohen), é um jornalista do Cazaquistão que resolve deixar o seu país e viajar para os Estados Unidos, com a intenção de fazer um filme documentário. Durante sua viagem pelo país, ele conhece pessoas reais que, ao reagir ao seu comportamento primitivo, expõem o preconceito e a hipocrisia existentes na cultura americana nos dias de hoje. É certo que aqui estamos num outro regime estético,  o de um cinema que assume o híbrido, a contaminação entre cinema e documental na sua construção e processo.
            No entanto se repararmos na caracterização do personagem principal que é apresentada como se segue:
 “ Filho de Asimbala Sagdiyev e Boltok, o Estuprador — de quem também é neto e genro—, nasceu em 30 de julho de 1972 na vila fictícia de Kuzcek, no Cazaquistão. Diverte-se jogando pingue-pongue, dançando música disco e fotografando mulheres enquanto elas vão ao WC. Viúvo, comemora a morte da primeira esposa Oxana — violentada e comida por um urso — que, apesar de cozinhar bem e ser boa no arado, passado três anos de a ter comprado — ao completar 15 anos — começou a ficar com a voz grossa, ganhar pelos no corpo e ficar com a "vagina parecida com a manga de um feiticeiro".
            Tem um filho de 13 anos chamado Hooeylewis e dois gêmeos de 12, Biram e Bilak, sendo também avô de dezessete crianças — algumas ele planeja vender para a popstar Madonna. Na sua família ainda estão a irmã mais velha Natalya — a quarta melhor prostituta do país (sexta durante a turnê das Pussycat Dolls) — e o caçula Bilo — retardado mental com a cabeça em forma de espiga e mais de duzentos dentes. Em sua viagem aos "US and A", como chamava os EUA, em busca de um romance com Pamela Anderson, conheceu Luenell nas ruas, com a qual uniu laços.
            Respeitado apresentador de telejornal na sua pátria natal, é membro do quadro de honra da Universidade de Astana, onde se formou com louvor não só em jornalismo mas em inglês e no estudo de pragas. Prestou durante longos anos serviços ao governo criando cinco novas pragas que devastaram cinco milhões de cabras no Uzbequistão, sem contar a época em que fez gelo, foi guardador de sêmen de animais, caçador de ciganos e removedor de pássaros mortos em um computador.    Pagão até fazer amizade com os pentecostais e converter toda a sua vila ao cristianismo, admira a visão política de Joseph Stalin por causa do forte e poderoso pênis do ex-ditador russo e apoia o presidente Bush na sua guerra de terror.
            Encontramos a extravagância e o delírio como eixo e fonte para a caraterização do personagem,  o que nos aproxima e muito, embora que um grau de complexidade substantivamente menor, da caracterização do personagem Diamantino.
Em DIAMANTINO o personagem principal, - Carloto Cotta -, é um jogador de futebol galáctico hiper famoso com pronuncia das ilhas, uma sonoridade próxima dos Açores, faz muita publicidade, e as montanhas de dinheiro que ganha são geridas pela família, no caso duas irmãs gémeas, essenciais na trama, são elas as antagonistas e simultaneamente coadjuvantes do herói da narrativa. As terríveis gémeas acabam por estar na origem de um ataque cardíaco fulminante que retira a vida ao pai. Um crime, acidente, rapidamente secundarizado nas peripécias da narrativa. Este herói tem uma particularidade, uma ingenuidade próxima da debilidade mental e um conhecimento do mundo para além “dos toques na bola”  muito incipiente. Tem ainda uma característica definitivamente fundadora da relação que o público estabelece com o personagem e com o filme,  quando está em campo,  os outros jogadores são por ele vistos como cães de peluche gigantes,  é a eles que finta e ao lado deles que corre e pontapeia a bola na direção do golo na baliza adversária.  É  uma personagem caricatura sem particular evolução do arco  narrativo, ou quase, dado que o filme é estruturado em 3 atos, - como são quase sempre  todas as histórias do cinema e na literatura oral e escrita-, e no final o protagonista está diferente, descobre e vive o amor físico com o filho adoptado.  Incesto e homossexualidade?  Não é bem isso, primeiro porque  o filho na verdade é filha,  e segundo porque a  adopção é falsa, resulta de um disfarce para um trabalho de espia de encomenda para a jornalista com quem vive uma relação amorosa e que está investigar possíveis escândalos financeiros de fuga aos impostos do jogador galáctico.

            Como referido, o argumento,  segue a estrutura do 3 atos, e como tal conta-nos uma história com principio meio e fim,  aspecto em nada displicente  para a relação dos públicos com a narrativa, seja esta qual for e, no caso do cinema, ser excêntrica pode mesmo ser uma vantagem, como é o caso.
            No entanto o argumento construído,  assim parece, com a  moderna Bimby que tudo cozinha, acaba por cometer o erro do excesso de ingredientes com dosagem  em quantidades  próximas do aleatório, -  mesmo sendo visível o cuidado com cenas plantadas na linha do tempo que permitem o avanço e o final. 
            Fica excessivo mesmo num filme que trabalha o excesso, uma paleta tão vasta de assuntos, como refugiados do norte de áfrica, fuga os impostos, jogadores galácticos, Brexit, campanhas para as eleições europeias,  genética aplicada, identidade trans-género.  Mas é isto tudo o filme, e se por um lado este excesso faz perder densidade por outro lado faz ganhar excentricidade e mantem num muito razoável nível o interesse e o prazer de acompanhar esta singular viagem fílmica.
            O filme tem um departamento de arte que não acompanha o excesso que carateriza o filme, duas irmãs gémeas com grande destaque e um protagonista que se entrega sem reservas ao filme, e um pai que estranhamente parece não tem o sotaque dos filhos. Ainda assim é um filme bem construído e ousado no panorama nacional.
            Não é todos os dias que se vê um jogador galáctico que quer só “fazer o bem” e alimentar com crepes de Nutella e Chantily  essa gente negra para ele desconhecida que atravessa quase a nado o mediterrâneo para chegar ao paraíso do continente Europeu. Um continente que vive e se olha a si próprio, por vezes, como neste caso,  com ironia e sátira.  O filme teve efeitos especiais da Irmã Lúcia e apoio financeiro do ICA, Euro-Image, e Fundo Ibero-Americano.  Vai continuar em cartaz e é uma das produções que vai marcar a colheita cinematográfica deste ano nas salas nacionais.






terça-feira, 11 de setembro de 2018

LABIRINTO DA SAUDADE


É o nome do filme documentário/ensaio de Miguel Gonçalves Mendes que teve estreia a 24 de Maio com distribuição da NOS Lusomundo Audiovisuais e fez 1.722 espectadores nas 170 sessões que tiveram lugar nas salas das Amoreiras e El Corte Inglês em Lisboa, Alameda Shop e Arrábida Shopping no Porto, Alma Shopping em Coimbra.  O número referido de espectadores corresponde a uma receita bruta de € 9.225 ,16.  Mas dizer isto é quase nada dizer sobre o filme e sobre as condições de produção e visibilidade/exibição do cinema português.


O labirinto da Saudade, é uma adaptação da obra homónima, é um ensaio documental narrado pelo próprio Eduardo Lourenço que percorre os espaços da sua memória e da própria história e identidade portuguesa, em busca da resposta do que é, afinal, isto de se ser portuguêsÉ assim que a produtora LONGSHOT apresenta o filme e com esta introdução começa-se a perceber melhor ao que o filme vem e o que trabalha.

Eduardo Lourenço e o filme que é filmado na sua cabeça.
            Diz Eduardo Lourenço após uma sessão de visionamento em  casa de Pilar Del Rio:  “ Nunca imaginei na minha vida ser ator de mim próprio. Obrigado Miguel. Isto foi uma das grandes surpresas da minha vida, tudo isto. Que não sei bem o que é: uma espécie de ficção - uma ficção encantatória -, diria, para me dar algum relevo antes de me ir embora. É uma espécie de requiem. É uma imagem interessante porque uma das coisas que mais me impressionou na vida foi o primeiro filme que eu vi sobre Dom João, rodeado de musas. Há demasiadas musas neste filme.  Tenho a sorte de ter tido bons amigos na vida, como este cineasta.
            No princípio, por ser baseado no livro, pensei que não haveria qualquer referência à Annie, a minha mulher. Mas está lá tudo, o que devia estar, o amor e uma ausência sem solução. E com ela estão os meus amigos que partilharam estes pensamentos e foram de uma generosidade talvez excessiva, pra mim, e que me é muito difícil de suportar.
            Eu sou eu. Comigo eu entendo-me. Ou vou-me entendendo mais ou menos. Mas não posso, não consigo pensar-me com o olhar dos outros.
            Sinto-o como uma coisa excessiva para uma pessoa que não tem uma notoriedade que corresponda a esta espécie de “conto de fadas”. Com alguns pontos infelizmente negativos, pelo meio.
            Tudo isto é moderado e modelado pelas intervenções dos diálogos que eu vou tendo com as diversas pessoas que se cruzam no meu percurso. Gente que quis dialogar comigo, que quis perceber o que é que eu andei a dizer por ai de maneiras talvez um pouco crípticas e misteriosas.
            O filme é demasiado, demasiado grande para mim, demasiado... quer dizer, toca-me em pontos que são muito sensíveis. Não quero dizer com isto que achei o filme chato. Pelo contrário, a questão é que chato sou eu na realidade E eu não posso sair deste filme como se não estivesse lá dentro. E isso é obra e consagração de quem fez o filme.
            Eu não queria nada imitar o Agostinho da Silva mas tenho algum receio que me transformem numa espécie de segunda versão do Agostinho. E é muito interessante que no filme apareçam essas referências ao Brasil. Que às vezes parecem um tema tabu. Esse diálogo com o Gregório é um dos melhores. Nunca tinha oportunidade de dizer o que me vai realmente na alma sobre o Brasil - essa presença/ ausência. De nós com ele e deles de nós.
            Tudo isto foi uma aventura, uma das aventuras, digamos, pouco romanescas como no nosso passado. Sobretudo, dos tempos em que fomos descobridores de mundos. Mas eu não descubro nem descobri coisa nenhuma.
            O que eu conheço já está descoberto há muito tempo. Eu limito-me a navegar na navegação dos outros por minha própria conta.
            Cada um julgará da minha performance neste filme ou falta dela. No Sentido que poderá ter esta navegação, por conta de um sonho, que é maior do que eu.
            Claro que nunca imaginei ser ator de mim próprio. E eu tenho a consciência de que não sou ator de modo nenhum. Como disse nunca imaginei na minha vida ser ator de mim mesmo. Esta é uma aventura que não corresponde às minhas capacidades. Esta aventura de me vestir nela de uma maneira criadora como aquilo que tentei fazer, por minha própria conta, quando escrevi o Labirinto da Saudade. De maneira que esta foi uma nova oportunidade de refletir toda uma mitologia que muitos contestam, e talvez até com razão, e assim foi me oferecida a oportunidade de emendar de novo um certo número de temas ou propósitos.
            Enfim, quem me ouve, quem me lê. Sobretudo quem me leu estará em circunstâncias de me corrigir que bem preciso. É um belo filme. Mas eu preferia que fosse outra pessoa a vestir esta coisa que me fica larga. Não houve nada que me tivesse chocado. Uma pessoa mitifica-se como pode. Mas pronto está feito, está feito.”



Miguel Gonçalves Mendes (o realizador do documentário José e Pilar) filma “O Labirinto da Saudade” de Eduardo Lourenço . O filme é uma viagem pelo interior de uma mente brilhante, inquieta, e amante.  Um amor continuado pela mulher com quem casou e viveu longos anos em França, um amor continuado pelo capacidade e exercício do pensamento, um amor continuado por um território real e simbólico com uma história já próxima do milenar,  — faltam 169 anos, foi em 1179  que o Papa Alexandre III assinou a bula Manifestis Probatum que concede o título de Rei a Afonso Henriques — que se chama Portugal.

            Aos 94 anos, o escritor e filósofo Eduardo Lourenço faz eco em nós das perguntas que até hoje nele perduram. Que traumas nos definiram enquanto povo? Quem somos? O que fizemos? Que atrocidades cometemos? Quais os caminhos que podemos seguir?
            São estas questões  o ponto de partida e o caminho percorrido em “O Labirinto da Saudade”, filme sobre uma “nação condenada desde a sua origem a esgotar-se em sonhos maiores do que ela própria”. Mas atenção, talvez que até hoje, esse seja um património comum à génese de todas as nações, qual a nação que pode existir e não soçobrar se nela não houver lugar para um sonho de si maior mesmo que ela própria, um sonho talvez até mesmo impossível?  Pode um País existir sem sonho? E no caso particular Português, que sonho é esse que nos faz, que nos alimenta e nos distingue
    Narrado e protagonizado pelo próprio Eduardo Lourenço, o documentário percorre os corredores da memória própria e da história de Portugal.  Cruza-se com fantasmas e amigos do seu presente –  Álvaro Siza Vieira, José Carlos Vasconcelos, Diogo Dória, Gonçalo M. Tavares, Lídia Jorge, Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier, que assumem o papel de interlocutores e  coadjuvantes condutores das reflexões escritas no livro.
O cinema é o dispositivo por excelência do sonho partilhado e, neste filme encantatório, como o referiu Eduardo Lourenço ,  há um personagem que é um homem hoje com quase um século de existência para quem por razões de caráter - aquilo que lhe é próprio - e de  destino - a possibilidade escolhida no conjunto sempre múltiplo das possibilidades que nos contextos foi encontrando - teve como objecto de trabalho e de afeto pensar o território que o viu nascer. Esse território tem nome de nação, chama-se Portugal. Materialidade e Sonho, inteligência e agudeza de espírito, simplicidade e encanto, um sonho que foi e é vida, é o que cada espectador partilha sente e vive quando da visibilidade em grande ecrã na sala escura deste filme que é uma das pequenas/grandes obras cinematográficas de Portugal em 2018. Não perca. 


FICHA TÉCNICA
REALIZAÇÃO Miguel Gonçalves Mendes
PRODUÇÃO Vasco Sequeira
DIRECÇÃO DE PRODUÇÃO Manuela Ribas
ARGUMENTO Miguel Gonçalves Mendes, Diogo Figueira e Sabrina D. Marques
DIRECÇÃO DE FOTOGRAFIA Leandro Fuzeta
MONTAGEM António Tainha
DIRECÇÃO DE ARTE Luís Monteiro
FIGURINOS Margarida Ruas
SOM Ricardo Sequeira
Desenho de som Alessandro Laroca | 1927studio    MÚSICA Noiserv