É o nome do filme documentário/ensaio de Miguel Gonçalves Mendes que teve estreia a 24 de Maio com distribuição da NOS Lusomundo Audiovisuais e fez 1.722 espectadores nas 170 sessões que tiveram lugar nas salas das Amoreiras e El Corte Inglês em Lisboa, Alameda Shop e Arrábida Shopping no Porto, Alma Shopping em Coimbra. O número referido de espectadores corresponde a uma receita bruta de € 9.225 ,16. Mas dizer isto é quase nada dizer sobre o filme e sobre as condições de produção e visibilidade/exibição do cinema português.
O
labirinto da Saudade, é uma adaptação da obra homónima, é um ensaio documental
narrado pelo próprio Eduardo Lourenço que percorre os espaços da sua memória e
da própria história e identidade portuguesa, em busca da resposta do que é,
afinal, isto de se ser portuguêsÉ assim que a produtora LONGSHOT apresenta
o filme e com esta introdução começa-se a perceber melhor ao que o filme vem e
o que trabalha.
Eduardo Lourenço e o filme que é filmado na sua cabeça.
Diz Eduardo Lourenço após uma sessão
de visionamento em casa de Pilar Del
Rio: “ Nunca imaginei na minha vida ser
ator de mim próprio. Obrigado Miguel. Isto foi uma das grandes surpresas da
minha vida, tudo isto. Que não sei bem o que é: uma espécie de ficção - uma ficção
encantatória -, diria, para me dar algum relevo antes de me ir embora. É uma
espécie de requiem. É uma imagem interessante porque uma das coisas que mais me
impressionou na vida foi o primeiro filme que eu vi sobre Dom João, rodeado de
musas. Há demasiadas musas neste filme.
Tenho a sorte de ter tido bons amigos na vida, como este cineasta.
No
princípio, por ser baseado no livro, pensei que não haveria qualquer referência
à Annie, a minha mulher. Mas está lá tudo, o que devia estar, o amor e uma
ausência sem solução. E com ela estão os meus amigos que partilharam estes
pensamentos e foram de uma generosidade talvez excessiva, pra mim, e que me é muito
difícil de suportar.
Eu
sou eu. Comigo eu entendo-me. Ou vou-me entendendo mais ou menos. Mas não
posso, não consigo pensar-me com o olhar dos outros.
Sinto-o
como uma coisa excessiva para uma pessoa que não tem uma notoriedade que
corresponda a esta espécie de “conto de fadas”. Com alguns pontos infelizmente
negativos, pelo meio.
Tudo
isto é moderado e modelado pelas intervenções dos diálogos que eu vou tendo com
as diversas pessoas que se cruzam no meu percurso. Gente que quis dialogar
comigo, que quis perceber o que é que eu andei a dizer por ai de maneiras
talvez um pouco crípticas e misteriosas.
O
filme é demasiado, demasiado grande para mim, demasiado... quer dizer, toca-me
em pontos que são muito sensíveis. Não quero dizer com isto que achei o filme
chato. Pelo contrário, a questão é que chato sou eu na realidade E eu não posso
sair deste filme como se não estivesse lá dentro. E isso é obra e consagração
de quem fez o filme.
Eu
não queria nada imitar o Agostinho da Silva mas tenho algum receio que me
transformem numa espécie de segunda versão do Agostinho. E é muito interessante
que no filme apareçam essas referências ao Brasil. Que às vezes parecem um tema
tabu. Esse diálogo com o Gregório é um dos melhores. Nunca tinha oportunidade
de dizer o que me vai realmente na alma sobre o Brasil - essa presença/
ausência. De nós com ele e deles de nós.
Tudo
isto foi uma aventura, uma das aventuras, digamos, pouco romanescas como no
nosso passado. Sobretudo, dos tempos em que fomos descobridores de mundos. Mas
eu não descubro nem descobri coisa nenhuma.
O
que eu conheço já está descoberto há muito tempo. Eu limito-me a navegar na
navegação dos outros por minha própria conta.
Cada
um julgará da minha performance neste filme ou falta dela. No Sentido que
poderá ter esta navegação, por conta de um sonho, que é maior do que eu.
Claro
que nunca imaginei ser ator de mim próprio. E eu tenho a consciência de que não
sou ator de modo nenhum. Como disse nunca imaginei na minha vida ser ator de
mim mesmo. Esta é uma aventura que não corresponde às minhas capacidades. Esta
aventura de me vestir nela de uma maneira criadora como aquilo que tentei
fazer, por minha própria conta, quando escrevi o Labirinto da Saudade. De
maneira que esta foi uma nova oportunidade de refletir toda uma mitologia que
muitos contestam, e talvez até com razão, e assim foi me oferecida a oportunidade
de emendar de novo um certo número de temas ou propósitos.
Enfim,
quem me ouve, quem me lê. Sobretudo quem me leu estará em circunstâncias de me
corrigir que bem preciso. É um belo filme. Mas eu preferia que fosse outra
pessoa a vestir esta coisa que me fica larga. Não houve nada que me tivesse
chocado. Uma pessoa mitifica-se como pode. Mas pronto está feito, está feito.”
Miguel Gonçalves Mendes (o
realizador do documentário José e Pilar) filma “O Labirinto da Saudade” de
Eduardo Lourenço . O filme é uma viagem pelo interior de uma mente brilhante,
inquieta, e amante. Um amor continuado
pela mulher com quem casou e viveu longos anos em França, um amor continuado
pelo capacidade e exercício do pensamento, um amor continuado por um território
real e simbólico com uma história já próxima do milenar, — faltam 169 anos, foi em 1179 que o Papa Alexandre III assinou a bula Manifestis Probatum que concede o título
de Rei a Afonso Henriques — que se chama Portugal.
Aos
94 anos, o escritor e filósofo Eduardo Lourenço faz eco em nós das perguntas
que até hoje nele perduram. Que traumas nos definiram enquanto povo? Quem
somos? O que fizemos? Que atrocidades cometemos? Quais os caminhos que podemos
seguir?
São
estas questões o ponto de partida e o
caminho percorrido em “O Labirinto da Saudade”, filme sobre uma “nação
condenada desde a sua origem a esgotar-se em sonhos maiores do que ela própria”.
Mas atenção, talvez que até hoje, esse seja um património comum à génese de
todas as nações, qual a nação que pode existir e não soçobrar se nela não houver
lugar para um sonho de si maior mesmo que ela própria, um sonho talvez até
mesmo impossível? Pode um País existir
sem sonho? E
no caso particular Português, que sonho é esse que nos faz, que nos alimenta e
nos distingue
O cinema é
o dispositivo por excelência do sonho partilhado e, neste filme encantatório,
como o referiu Eduardo Lourenço , há um
personagem que é um homem hoje com quase um século de existência para quem por
razões de caráter - aquilo que lhe é próprio - e de destino - a possibilidade escolhida no
conjunto sempre múltiplo das possibilidades que nos contextos foi encontrando -
teve como objecto de trabalho e de afeto pensar o território que o viu nascer. Esse
território tem nome de nação, chama-se Portugal. Materialidade e Sonho,
inteligência e agudeza de espírito, simplicidade e encanto, um sonho que foi e
é vida, é o que cada espectador partilha sente e vive quando da visibilidade em
grande ecrã na sala escura deste filme que é uma das pequenas/grandes obras
cinematográficas de Portugal em 2018. Não perca.
FICHA TÉCNICA
REALIZAÇÃO Miguel Gonçalves Mendes
PRODUÇÃO Vasco Sequeira
DIRECÇÃO DE PRODUÇÃO Manuela Ribas
ARGUMENTO Miguel Gonçalves Mendes, Diogo
Figueira e Sabrina D. Marques
DIRECÇÃO DE FOTOGRAFIA Leandro Fuzeta
MONTAGEM António Tainha
DIRECÇÃO DE ARTE Luís Monteiro
FIGURINOS Margarida Ruas
SOM Ricardo Sequeira
Desenho de som Alessandro Laroca | 1927studio MÚSICA Noiserv
Sem comentários:
Enviar um comentário