quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O MUNDO COMO ZOOLÓGICO DO HOMEM, breve referencia a 2017 e à nova lei do cinema que se avizinha

O MUNDO COMO ZOOLÓGICO DO HOMEM, breve referencia a 2017 e à nova lei do cinema que se avizinha


            É da nossa natureza de animal enlouquecido, atores e observadores que somos da nossa passagem no mundo, a tentativa de ver em permanência com olhar de satélite  o planeta que habitamos, criamos e também destruímos. É o olhar humano mais próximo da ideia do lugar do olhar de Deus, entretanto múltiplas vezes assassinado e múltiplas vezes trazido às nossas vidas.
           Mesmo atendendo ao empenho fabril com nos entregamos à alienação da nossa condição trágica perante o nada. Do inevitável choque sem cinto de segurança com a morte, condição necessária ao “carpie diem”, é da nossa condição de falência enquanto máquina antropológica, a inquietude e a observação permanente.

            São as nossas práticas como seres sociais, condição do humano, que nos demonstram a condição de animal enlouquecido. A loucura pode ser heroica, gloriosa, trágica, permanente ou passageira, em função do pensamento dominante da época em que o pensamento e ações concretas se produzem, ou num tempo de análise posterior ao acontecimento.

            Somos a mais bela máquina horrível. Belos assassinos de nós próprios e do outro (s). É difícil o olhar distanciado e sem paixão sobre nós e sobre o outro.

            O tempo de vida de cada maquina antropológica em falência que cada um é vai se esgotando, felizmente na maior parte do tempo sem a permanente consciência dessa inevitabilidade. Mas a vida adiciona  esse lugar do vazio cada vez mais preenchido dos companheiros mortos. No entanto, nesta esgadanhar da fera ao civilizado é quase sempre desse outro lugar da vida, que nos chegam as ressonâncias e até asserções mais orientadoras e construídas, o presente é produto do passado. Aqui neste lugar do mundo, é a voz milenar de Confúcio e Buda que ecoa em outras de um tempo mais próximo, Jorge Álvares, Camões, Marx, Nietzsche, Sartre, Bergman, Marilyn, Artaud,   sim, são muitas, quase infinitas as vozes que nos habitam. Parece ser tendencialmente aceite que o pós-moderno já não nos serve e a hiper realidade é uma constatação do real com toques glamorosos de uma maquilhagem Dior. O fracasso absoluto dos corpos afogados no mediterrâneo no movimento continuo do fluxo de gentes à procura do sonho da Europa, ou apenas em fuga da miserável condição da ausência pão, o som dos inaudíveis desastres interiores que a custo não queremos ouvir e com força de nervos arrancamos da carne e vamos expulsando para redes de esgotos escondidas, dizem-nos que é bom sermos felizes, supremamente gratos, e que para o sermos não é possível abandonar esse querer primeiro da infância do mundo justo e fértil.

            Nesta nosso mundo há vários mundos. São muitos e diferentes tempos sociais e culturais que produzem os factos sociais que habitamos.
            Há um Oriente que afirma o sucesso da sua civilização milenar e simultaneamente de enorme modernidade no mundo contemporâneo, e uma europa que se recusa a olhar-se no melhor de si própria, envelhecida paradoxalmente pelo simulacro do novo. É tempo do Pós-Renascimento. Não é suficiente o cartesianismo positivista do iluminismo neste outro século, o XXI. Há por aqui a permanência de um eurocentrismo bacoco e desajustado do real, nos quotidianos da informação televisiva. A banalização do pensamento medíocre em doze letalmente excessiva.

            Para onde caminhamos é a pergunta, que beleza e horror construímos quotidianamente nas nossas fábricas, campos, cidades? As respostas são abertas, mas pergunta é sempre e continuamente necessária.

            A legitimação da Arte,  passada a euforia dos melhores e piores de 2017, anuncia-se o chegar de uma nova lei para Cinema em Portugal, que continua a partir de um lugar mais pequeno do que o visível a partir de Portugal dos Pequeninos.

            Neste 2017 a terminar vi muitos filmes. Dos que vi, destaco S. JORGE, do Marco Martins - produção Portuguesa, filme premiado no Festival Internacional de Macau e outros, Veneza é deles. Já aqui escrevi sobre este tremendo filme. Noto também a obra COMBOIO DO AÇUCAR, do Licínio Azevedo - coprodução Portugal-Moçambique, filme que também tive a oportunidade de referenciar por altura do Fantas Porto 2017. Outros felizmente existem que merecem destaque, mas não este o assunto.

            A atividade do cinema em Portugal continua a ser olhada pelos decisores políticos como coisa menor, com a qual não importa perder tempo nem pensar recursos, estratégias, objectivos, para além daqueles gerais sempre bem enunciados nos preâmbulos do enquadramento legislativo - ao abrigo do artigo 78º Capítulo III no seu ponto 1 e 2, alíneas a) b) c) d) e) da Constituição da República Portuguesa .
            No entanto na prática a menoridade atribuída à produção e fruição cultural é uma evidência, desde logo no orçamento geral do Estado, mas também, e muito, nos articulados específicos e no funcionamento do ICA- Instituto Público ao qual cumpre desenvolver e cumprir as políticas públicas para o cinema. A realidade que o cinema vive é um ICA que tem como boa filosofia o lavar das mãos como na lenda bíblica de  Pôncio Pilatos (relato de Mateus).  A nova lei é de que se avizinha a publicação é uma versão com nova data da anterior. Ao que parece, também nestas matérias, é urgente convocar o olhar do Presidente Marcelo , esse gigante dos afectos e do bom senso esclarecido, é que, para além do lugar do cinema enquanto atividade económica a “anos-luz” da sua potencia entre nós, há esse outro lugar mais difícil e menos preciso em quantificar, mas de inegável relevância; o lugar do cinema na identidade, na construção do património simbólico, na estruturação de comportamentos, nas cinevisões do mundo, no desenvolvimento das cidades criativas e política externa dos Estados contemporâneos.


             

O CINEMA NOS TERRITÓRIOS DO ENSAIO E DA FICÇÃO DOCUMENTÁRIO

CIDADE ECRÃ
Rui Filipe Torres


O CINEMA NOS TERRITÓRIOS DO ENSAIO E DA FICÇÃO DOCUMENTÁRIO

        


TODAS AS CARTAS DE RIMBAUD  -  Edmundo Cordeiro , 59´


            O grande auditório da Culturgest esteve quase cheio de um público interessado nesta incursão do cineasta e professor de cinema, Edmundo Cordeiro, pelo território do cinema ensaio.
            O filme passou na secção “ DA TERRA À LUA/ FROM THE EARTH TO THE  MOON”, apresentada como sendo o lugar para a visibilidade de filmes e realizadores que marcam a atualidade.  A formulação suscita seguramente leituras diversas,  e pode até ser essa a intenção primeira da sentença.  Seguro é que na cinematografia contemporânea o cinema-ensaio, território com alguma dificuldade de mapeamento, tem irrompido com vitalidade própria, profundidade, e o rigor formal da procura e da liberdade estética cinematográfica.
            TODAS AS CARTAS DE RIMBAUD , é disto mesmo um belo - essa categoria tão dada à especulação filosófica - exemplo. O filme, num registo entre o documental, a imagem pictórica, o trabalho de som, e o exercício da montagem como lugar próprio da especificidade fílmica,  ocupa um lugar com distinção e  sobriedade, neste território contemporâneo do filme que filosofa,  um dos territórios por excelência do cinema ensaio.
            João Maria Mendes, no seu livro “ O Filme que filosofa”, edição da Escola Superior de Teatro e Cinema, 2013 ,  na sinopse do livro escreve ” abordamos aqui as relações entre filosofia e cinema, uma área de estudos que, sobretudo a partir de Cinéma 1 e Cinéma 2 de Gilles Deleuze e da vasta reflexão de Stanley Cavell, se autonomizou no âmbito dos Film Studies e das Teorias do Cinema”. Na página 32 escreve: “ … a penetração de actos filosóficos no cinema e nos seus filmes é melhor entendida como um movimento minoritário que visa promover uma espécie de segunda natureza da obra cinematográfica, aproximando-a de um regime de enunciação que tenta apagar a fronteira entre os perceptos de Deleuze e Guattari e os conceitos da filosofia… personagens ou narradores assumem deliberadamente um discurso autoral ou que ajuda a construir esse discurso autoral, transformando-se explicitamente em parte dos seus argumentos e explananda como instrumentos de construção de uma teoria, então essa função  enunciativa/discursiva aproxima-se do modelo do  tercer cine  ativista, militante, revolucionário e herda sobretudo das suas práticas e experiência.
            Tudo isto significa que, de modo impressionista e sem atender à especificidade das reivindicações ou do enfoque prevalecente da filmosofia contemporânea, é possível pensar o “ o filme que filosofa”, genealogicamente, a partir do “filme militante” dos anos 60: o modelo por detrás de ambos seria neste caso o do “filme ensaio” tal como Godard ou Solanas o praticaram”.
            Conduzidos por Maria Filomena Molder e por Edmundo Cordeiro, ou por Edmundo Cordeiro e Maria Filomena Molder , — questão que o filme resolve, dado tornar claro que o olhar do cineasta se confunde perde e alarga no olhar da protagonista, a qual por sua vez conduz-nos aos territórios e cartas de Rimbaud—, somos convocados a uma cinematografia que faz da interrogação do prazer e das suas categorias, tema e forma.
            Ao longo do tempo do filme, outros tempos e toda uma constelação do pensamento de Maria Filomena Molder, vão sendo enunciados, e esse enunciado é continuamente povoado com ecos , vestígios, centros e periferias, coágulos e sangue solto, do Rimbaud e com ele, ou a seu propósito, chega-mos o pensamento de Kant e Goethe, leituras, reflexões que acompanham as investigações da protagonista viva do filme.
            Na relativamente recente entrevista ao jornal expresso (06.06.2016), é escrito que a Pertença de Maria Filomena Mónica é ancorada em Wittgenstein, kant, Benjamin, Dante, Broch.  Isto diz muito de alguém. Ela, a protagonista, foi professora de Estética na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas durante 30 anos. Percebe-se que a resposta às interrogações da estética é uma condição de abismo permanente, perguntas num esforço continuado e atento na tentativa de acalmar o desastre e alimentar a ideia, paradoxalmente, lugar da materialidade do humano.
            Rimbaud, é o poeta, e o filme diz-nos que apenas esses, os poetas, são portadores da ciência dos sábios, apenas aos poetas é possível o conhecimento.
             Rimbaud pertence a essa espécie de poeta santo e maldito capaz de incendiar e levar ao fogo almas e corpos inteiros,  maldito e por isso santo,  capaz da revelação, do esvaziamento e do pérfido, da experimentação da radicalidade do corpo como laboratório da produção do sentido. Milhões de em todo o mundo sabem o seu nome, mesmo que não conheçam uma frase escrita com o seu sangue.
            O filme diz-nos que todas as cartas de Rimbaud  não são muitas, o que não é igual a dizer a dizer que não são imensas e conduz-nos através da elevação do abismo. Informa-nos da radical impossibilidade do sublime, refresca em nós a eterna sede do belo. Recoloca-nos na dificuldade inultrapassável da falência da condição do humano.  Mas que outro desígnio nos pode ser mais útil do que a doçura venenosa dos desígnios inúteis? É provável que só estes nos possam salvar do horror total e colectivo de que somos capazes, comprovado, experienciado, em Auschwitz, mas também em Hiroshima,  no tráfico humano,  nos campos de refugiados e exércitos atuais de “no body” que trilham os construímos quotidianos de colares eléctricos incapazes da anulação da submissão e da dor.
            “ O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos” , escreveu Arthur Rimbaud.  O filme esse, transporta-nos seguros e sensatos ao pensamento do mundo moderno, mas ainda assim, com a força e o prazer suficiente da interrogação,  da inquieta angustia que permanece inamovível em nós.

Retrospectiva Vêra Chytilová



Pleasant Moments  - 2016  113 minutos , República Checa
Hezké Chvilky bez Záruky

           
            É sem concessões que o mundo irónico, patético e feroz e delicado de Vêra Chytilová, com a força de um tufão, irrompe continuamente no ecrã e invade de abismo o nosso ser.
            O filme tem como personagem central HANA e o consultório onde exerce a atividade de psicóloga.  Também ela, a psicóloga, vive à beira de um esgotamento nervoso.  São muitos os pacientes complexos que, continuamente, num ritmo alucinante de máquina de lavar invadem a sala do seu consultório, nervos rasgados, a dor no sangue, olhos em abismo, procuram uma resposta para o sentimento comum da falha e da perda, na falência do encontro com o outro. A última longa-metragem de Chytilová é uma tragicomédia humana, uma história de tormento diário escrita com a psicanalista Irmanonová.
            A camera, o olhar da realizadora, está quase sempre num movimento constante, colada aos personagens secundários e à protagonista, captando com intensidade diálogos e gestos dos corpos feridos, da dor que explode sem capacidade de exílio, olhos rasgados cegos pela tormenta dos quotidianos partilhados e estilhaçados no mercado falido dos afectos sempre em queda.
            A verdade que nos chega e invade a partir dos corpos que entram e saem de roldão no consultório, quase sempre tão histéricos na chegada como na partida, montanhas de humanidade em abismo, que  ali procuram rota, um mapear possível para um caminho a outros territórios que salvem o amor rasgado que enlaça e afunda as possibilidades de paz e a doçura do encontro partilhado com o outro.
            Sim, é sempre a falência do amor, e procura da superação dessa perda, o que  arrasta em loop continuo um conjunto vasto de pessoas, aquele lugar de mais verdade e impossibilidade do humanado do que aquele outro do recolhimento e do  silêncio nas seminais igrejas onde no transcendente se procura o remédio da dor incurável.
            Hana também se afunda,  a relação com a mãe, com o marido, com filho, todo está longe do mundo ordenado e estrategicamente objectivado visto no cinema produzido na grande indústria do sonho e flashes da Wall Street. Aqui a falência é real, suportada pelos protagonistas da sua história, nenhum outro paga a falência do próprio.  É com a força e a sensibilidade própria dessa condição do ser no feminino, que Hana,  mantem a cabeça erguida capaz para respiração necessária à eficaz circulação do sangue. O seu consultório é um ringue, um lugar onde a verbalização da dor chega com a violência do soco do pugilista,  olhos negros, explosões de sangue irrompem da carne flagelada,  lugar de medo, revolta, pânico, tensão permanente.
            É raro tanta verdade num filme.
            Não há salvação, só que ainda não o sabemos, diz Hana, sobre o olhar de Sigmund Freud, congelado na fotografia na parede do consultório, a alguém que procura na sua figura e voz a morfina para a dor que sente.
            É a uma cidade inteira, centenas de cidades, a que este pequeno conjunto personagens vividas neste filme nos transportam, neste olhar feminino e forte de revelação e abismo,  de dor e luta, de uma cineasta definitivamente maior na cinematografia europeia.
           




sábado, 21 de outubro de 2017

AL BERTO em filme versão pop gay

AL BERTO  em filme versão pop gay


O filme AL BERTO, do realizador Vicente Alves do Ó, tem estreia comercial a 5 de Outubro de 2018.  Um filme é sempre o resultado de duas coisas, o olhar de quem o filma e as condições de produção que o circunscreveram. Este axioma encerra e contém todos as variáveis, equipas artísticas e técnicas, contextos, estéticas e pensamento cinematográfico, distribuição e mercados. Este AL BERTO é o do Vicente Alves do Ó.
            Na nota biográfica que se pode ler na página da Assírio & Alvim,  editora  da obra poética do AL BERTO, prémio PEN de poesia em 1987, lê-se : “Poeta e editor português, de nome completo Alberto Raposo Pidwell Tavares, nasceu a 11 de Janeiro de 1948, em Coimbra, e faleceu a 13 de Junho de 1997, em Lisboa. Tendo vivido até à adolescência em Sines, exilou-se, entre 1967 e 1975, em Bruxelas, dedicando-se, entre outras atividades, ao estudo de Belas-Artes.
            Publicou o primeiro livro dois anos depois de regressar a Portugal. 
Em mais de vinte anos de atividade literária, a expressão poética assumida por Al Berto, o pseudónimo do autor, distingue-se de qualquer outra experiência contemporânea pela agressividade (lexical, metafórica, da construção do discurso) com que responde à disforia que cerca todos os passos do homem num universo que lhe é hostil. Trazendo à memória as experiências poéticas de Michaux ou de Rimbaud, é no próprio sofrimento, na sua violenta exaltação, na capacidade de o tornar insuportavelmente presente (nas imagens de uma cidade putrefacta, na obsidiante recorrência da morte e do mal, sob todas as suas formas) que a palavra encontra o seu poder exorcizante, combatendo o mal com o mal. É neste sentido que Ramos Rosa fala de uma "poesia da violência do mundo e da realidade insuportável": "a opacidade do mal ou a agressividade do mundo é tão intensa que provoca um choque e um desmoronamento geral", mas "à violência desta destruição responde o poeta com uma violenta negatividade que é uma pulsão de liberdade absoluta, que procura por todos os meios o seu espaço vital.", sublinhando ainda a forma como esta espécie de "grito de fragilidade extrema e irredutível do ser humano, do seu desamparado infinito, da sua revolta absoluta e sem esperança", se consubstancia, ao nível do estilo, num ritmo "ofegante, precipitado, como um assalto contínuo feito de palavras tão violentas como instrumentos de guerra" (cf. ROSA, António Ramos - A Parede Azul. Estudos Sobre Poesia e Artes Plásticas, Lisboa, Caminho, 1991, pp. 120-121).”
            No filme do Vicente Alves do Ó,  conhecemos um Al Berto nos anos de 1975, em Sines, regressado do seu exílio em Bruxelas.
            Importa notar que 1975 é o ano quente, o tempo de maior tensão social e cultural vivido na sociedade portuguesa depois dos anos de convulsão do final da regime Monárquico e implantação da República nos anos de fronteira do séc. XIX para o Séc. XX.
            O mundo estava ainda dividido em mundo livre, o mundo Ocidental de economia de mercado aberto, e o mundo para lá da “cortina de ferro” , a Europa Oriental e a sua zona de influência ,  de sistema comunista, mercado planificado e onde o Estado era assumido como um poder de classe, mas naquele caso, a classe dos proletários.
            Em Portugal sonhava-se as possibilidades do mundo. Sines avançava nos projetos já anteriormente decididos ( Estado Novo) da grande indústria da energia a partir do petróleo.  Sines, a vila porto de pesca, vivia novos enxames, gente que chegava das ex-colónias e ali procurava um recomeço de vida, e mão de obra à procura do salário.
            A Sines chegava também o poeta.  A casa apalaçada da sua família tinha, como tantas outras, sido objecto de expropriação.  Desabitada, era o lugar ideal para um Maio de 68, não em Paris, mas em Sines. Este é o contexto.
            O filme mostra um AL BERTO em que o seu capital de transgressão pouco mais parece ser do que o desregramento e o amor homossexual . Poderá a muitos não parecer pouco.  Para mim é.  Pouco se percebe, para quem não o saiba já, do tempo social e histórico em que a narrativa acontece. Pouco se sabe da profunda sensibilidade estética, do homem que na sua vida e já naquele tempo teve como lugar absoluto a sua obra literária. 
            Por essa altura, 1974/75  escreveu  “ À PROCURA DO VENTO NUM JARDIM D’ AGOSTO” , em  “atrium” ,  lê -se: 
            “ luta de sonâmbulos animais sob a chuva, insectos quentes escavam geometrias de baba pelas paredes do quarto, em agonia, incham, explodem contra a límpida lâmina da noite, são resíduos ensanguentados do ritual.
              na cal viva da memória dorme o corpo.  vem lamber-lhe as pálpebras um cão ferido. acorda-o para a inútil deambulação da escrita.                                                              abandonado vou pelo caminho de sinuosas cidades, sozinho, procuro o fio de néon que indica a saída.
             eis a deriva pela insónia de quem se mantem vivo num túnel de noite, os corpos de Alberto e Al berto vergados à coincidência suicidaria das cidades.
            eis a travessia deste coração de múltiplos nomes: vento, fogo, areia, metamorfose, água, fúria, lucidez, cinzas.
            ardem cidades, ardem palavras, inocentes chamas que nomeiam amigos, lugares, objectos, arqueologias, arde a paixão no esquecimento de voltar a dialogar com o mundo, arde a língua daquele que perdeu o medo.
            germinam fluidos mágicos por dentro da matéria contaminada do corpo, os órgão profundos gemem assustados pelo excesso, nunca mais voltámos a encontrar um paraíso. a pausa para respirar não existe, o tempo dos grandes desertos absorveu a seiva dos adolescentes dias.
             a insónia, essa ferida cor de ferrugem, festeja noctívagas alucinações sobre a pele. no ácido écran das pálpebras acendem-se quartos alugados onde pernoitamos. são enfim brancos esses pedaços de memória onde dávamos abrigo e sossego aos corpos.
            para sobreviver à noite decidimos perder a memória. cobríamo-nos com musgo seco e amanhecíamos num casulo frio, perdidos no tempo, mas, antes que a memória fosse apenas uma ligeira sensação de dor, registámos inquietantes vozes, caminhámos invisíveis na repetição enigmática das máscaras, dos rostos, dos gestos desfazendo-se em cinza. escutámos o que há de inaudível em nossos corpos.
            era quase de manhã no fim do cansaço. despertava em nós o vago e trémulo desejo de escrever.
            ...         
            O filme AL BERTO do Vicente Alves do Ó,  acontece, propõe-se acontecer no tempo desta escrita, e tem o mérito de nos permitir regressar a ela, de exigir mesmo esse regresso a todo do corpo da escrita do poeta, porque é aí, e só aí, que sentimos o batimento do sangue, o sal das lágrimas, o espanto e o horror do mundo, neste combate em que raramente se passa o estágio de aprendiz ofuscados na euforia das guitarras eléctricas e esparsos fios de mel.
            Vicente Alves do Ó, é um realizador inteligente, sabe o que quer, sabe onde está. Sabe também que cenas como a vandalização da livraria que coloca no filme não aconteceram. Sabe que a homossexualidade e o comportamento transgressivo da norma sexual é um dado permanente e comum, embora sempre um interdito, no quotidiano das comunidades, sejam rurais ou citadinas, agora ou ontem.  Mas a associação direta do artista, da sensibilidade inerente à prática e exercício duro, solitário, feroz, radical, da arte, à homossexualidade, coisa muito vista cá no burgo, é uma falácia, como outras. Ser homossexual não é passaporte para ser poeta, ou cineasta, ou pintor, como evidentemente também não é impeditivo, nem barreira.
            Hoje, quando passam 20 anos ( o tempo corre veloz) , da morte do Alberto e do Al Berto, SINES vive-o como o seu máximo e justo herói.  AL BERTO  é património e identidade de SINES, tal como o Festival Músicas do Mundo recentemente distinguido - a 19 de Setembro-  pela Plataforma Europeia de Festivais , entre os 715 festivais de todas as áreas artísticas, um dos seis vencedores desse prémio europeu.
            Ou a excomunhão farisaica de que nos fala Vicente Alves do Ó, de uma vila a expulsar um dos seus habitantes, não tem uma ligação assim tão direta ao real vivido pela comunidade, ou a mentalidade da comunidade mudou totalmente, e o pecador é agora o santo eleito.
            Inocente também não é colocar o partido comunista português como o agente principal da repressão à liberdade de costumes do poeta. É uma visão, a do realizador, e terá sempre o mérito de trazer à discussão o cinema português e o poeta Al Berto.
            No filme temos alguns rasgos do imaginário e do real, e em várias sequências estivemos perto de um tratamento com maior profundidade da complexidade do pulsar da realidade social nesse tempo retratado, mas quase sempre, a inquietude e o sonho do mundo, fica reduzida a um registo pop gay.
            O poeta AL BERTO resiste, foge, como sempre fez, arde no caminho solitário como cometa, resiste consciente da sua efemeridade, foge da tela para a obra, a palavra escrita, onde permanecerá maior e voz singular.