CIDADE ECRÃ
Rui
Filipe Torres
O CINEMA NOS TERRITÓRIOS DO
ENSAIO E DA FICÇÃO DOCUMENTÁRIO
TODAS
AS CARTAS DE RIMBAUD - Edmundo Cordeiro , 59´
O grande auditório da Culturgest esteve
quase cheio de um público interessado nesta incursão do cineasta e professor de
cinema, Edmundo Cordeiro, pelo território do cinema ensaio.
O
filme passou na secção “ DA TERRA À LUA/ FROM THE EARTH TO THE MOON”, apresentada como sendo o lugar para a
visibilidade de filmes e realizadores que marcam a atualidade. A formulação suscita seguramente leituras
diversas, e pode até ser essa a intenção
primeira da sentença. Seguro é que na
cinematografia contemporânea o cinema-ensaio, território com alguma dificuldade
de mapeamento, tem irrompido com vitalidade própria, profundidade, e o rigor
formal da procura e da liberdade estética cinematográfica.
TODAS
AS CARTAS DE RIMBAUD , é disto mesmo um belo - essa categoria tão dada à
especulação filosófica - exemplo. O filme, num registo entre o documental, a
imagem pictórica, o trabalho de som, e o exercício da montagem como lugar
próprio da especificidade fílmica, ocupa
um lugar com distinção e sobriedade,
neste território contemporâneo do filme que filosofa, um dos territórios por excelência do cinema
ensaio.
João
Maria Mendes, no seu livro “ O Filme que filosofa”, edição da Escola Superior
de Teatro e Cinema, 2013 , na sinopse do
livro escreve ” abordamos aqui as relações entre filosofia e cinema, uma
área de estudos que, sobretudo a partir de Cinéma 1 e Cinéma 2 de
Gilles Deleuze e da vasta reflexão de Stanley Cavell, se autonomizou no âmbito
dos Film Studies e das Teorias do Cinema”. Na página 32 escreve: “ … a
penetração de actos filosóficos no cinema e nos seus filmes é melhor
entendida como um movimento minoritário que visa promover uma espécie de segunda
natureza da obra cinematográfica, aproximando-a de um regime de enunciação
que tenta apagar a fronteira entre os perceptos de Deleuze e Guattari e
os conceitos da filosofia… personagens ou narradores assumem deliberadamente
um discurso autoral ou que ajuda a construir esse discurso autoral,
transformando-se explicitamente em parte dos seus argumentos e explananda como instrumentos de construção
de uma teoria, então essa função
enunciativa/discursiva aproxima-se do modelo do tercer
cine ativista, militante, revolucionário
e herda sobretudo das suas práticas e experiência.
Tudo isto significa que, de modo
impressionista e sem atender à especificidade das reivindicações ou do enfoque
prevalecente da filmosofia contemporânea,
é possível pensar o “ o filme que filosofa”, genealogicamente, a partir do
“filme militante” dos anos 60: o modelo por detrás de ambos seria neste caso o
do “filme ensaio” tal como Godard ou Solanas o praticaram”.
Conduzidos
por Maria Filomena Molder e por Edmundo Cordeiro, ou por Edmundo Cordeiro e Maria
Filomena Molder , — questão que o filme resolve, dado tornar claro que o olhar
do cineasta se confunde perde e alarga no olhar da protagonista, a qual por sua
vez conduz-nos aos territórios e cartas de Rimbaud—, somos convocados a uma
cinematografia que faz da interrogação do prazer e das suas categorias, tema e
forma.
Ao
longo do tempo do filme, outros tempos e toda uma constelação do pensamento de
Maria Filomena Molder, vão sendo enunciados, e esse enunciado é continuamente
povoado com ecos , vestígios, centros e periferias, coágulos e sangue solto, do
Rimbaud e com ele, ou a seu propósito, chega-mos o pensamento de Kant e Goethe,
leituras, reflexões que acompanham as investigações da protagonista viva do
filme.
Na
relativamente recente entrevista ao jornal expresso (06.06.2016), é escrito que
a Pertença de Maria Filomena Mónica é ancorada em Wittgenstein, kant, Benjamin,
Dante, Broch. Isto diz muito de alguém. Ela,
a protagonista, foi professora de Estética na Faculdade de Ciências Sociais e
Humanas durante 30 anos. Percebe-se que a resposta às interrogações da estética
é uma condição de abismo permanente, perguntas num esforço continuado e atento
na tentativa de acalmar o desastre e alimentar a ideia, paradoxalmente, lugar
da materialidade do humano.
Rimbaud,
é o poeta, e o filme diz-nos que apenas esses, os poetas, são portadores da
ciência dos sábios, apenas aos poetas é possível o conhecimento.
Rimbaud pertence a essa espécie de poeta santo
e maldito capaz de incendiar e levar ao fogo almas e corpos inteiros, maldito e por isso santo, capaz da revelação, do esvaziamento e do
pérfido, da experimentação da radicalidade do corpo como laboratório da
produção do sentido. Milhões de em todo o mundo sabem o seu nome, mesmo que não
conheçam uma frase escrita com o seu sangue.
O
filme diz-nos que todas as cartas de Rimbaud
não são muitas, o que não é igual a dizer a dizer que não são imensas e
conduz-nos através da elevação do abismo. Informa-nos da radical impossibilidade
do sublime, refresca em nós a eterna sede do belo. Recoloca-nos na dificuldade
inultrapassável da falência da condição do humano. Mas que outro desígnio nos pode ser mais útil
do que a doçura venenosa dos desígnios inúteis? É provável que só estes nos
possam salvar do horror total e colectivo de que somos capazes, comprovado,
experienciado, em Auschwitz, mas também em Hiroshima, no tráfico humano, nos campos de refugiados e exércitos atuais de
“no body” que trilham os construímos quotidianos de colares eléctricos
incapazes da anulação da submissão e da dor.
“
O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de
todos os sentidos” , escreveu Arthur Rimbaud.
O filme esse, transporta-nos seguros e sensatos ao pensamento do mundo
moderno, mas ainda assim, com a força e o prazer suficiente da
interrogação, da inquieta angustia que
permanece inamovível em nós.
Retrospectiva
Vêra Chytilová
Pleasant Moments - 2016 113 minutos , República Checa
Hezké Chvilky bez Záruky
É
sem concessões que o mundo irónico, patético e feroz e delicado de Vêra
Chytilová, com a força de um tufão, irrompe continuamente no ecrã e invade de
abismo o nosso ser.
O filme tem como personagem central HANA e
o consultório onde exerce a atividade de psicóloga. Também ela, a psicóloga, vive à beira de um
esgotamento nervoso. São muitos os
pacientes complexos que, continuamente, num ritmo alucinante de máquina de
lavar invadem a sala do seu consultório, nervos rasgados, a dor no sangue,
olhos em abismo, procuram uma resposta para o sentimento comum da falha e da
perda, na falência do encontro com o outro. A última longa-metragem de
Chytilová é uma tragicomédia humana, uma história de tormento diário escrita
com a psicanalista Irmanonová.
A camera, o olhar da realizadora,
está quase sempre num movimento constante, colada aos personagens secundários e
à protagonista, captando com intensidade diálogos e gestos dos corpos feridos,
da dor que explode sem capacidade de exílio, olhos rasgados cegos pela tormenta
dos quotidianos partilhados e estilhaçados no mercado falido dos afectos sempre
em queda.
A verdade que nos chega e invade a
partir dos corpos que entram e saem de roldão no consultório, quase sempre tão
histéricos na chegada como na partida, montanhas de humanidade em abismo,
que ali procuram rota, um mapear
possível para um caminho a outros territórios que salvem o amor rasgado que
enlaça e afunda as possibilidades de paz e a doçura do encontro partilhado com o
outro.
Sim, é sempre a falência do amor, e
procura da superação dessa perda, o que
arrasta em loop continuo um conjunto vasto de pessoas, aquele lugar de
mais verdade e impossibilidade do humanado do que aquele outro do recolhimento
e do silêncio nas seminais igrejas onde
no transcendente se procura o remédio da dor incurável.
Hana também se
afunda, a relação com a mãe, com o
marido, com filho, todo está longe do mundo ordenado e estrategicamente
objectivado visto no cinema produzido na grande indústria do sonho e flashes da
Wall Street. Aqui a falência é real, suportada pelos protagonistas da sua
história, nenhum outro paga a falência do próprio. É com a força e a sensibilidade própria dessa
condição do ser no feminino, que Hana,
mantem a cabeça erguida capaz para respiração necessária à eficaz
circulação do sangue. O seu consultório é um ringue, um lugar onde a
verbalização da dor chega com a violência do soco do pugilista, olhos negros, explosões de sangue irrompem da
carne flagelada, lugar de medo, revolta,
pânico, tensão permanente.
É raro tanta verdade num filme.
Não há salvação, só que ainda não o
sabemos, diz Hana, sobre o olhar de Sigmund Freud, congelado na fotografia na
parede do consultório, a alguém que procura na sua figura e voz a morfina para
a dor que sente.
É a uma cidade inteira, centenas de
cidades, a que este pequeno conjunto personagens vividas neste filme nos
transportam, neste olhar feminino e forte de revelação e abismo, de dor e luta, de uma cineasta definitivamente
maior na cinematografia europeia.
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