quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O CINEMA NOS TERRITÓRIOS DO ENSAIO E DA FICÇÃO DOCUMENTÁRIO

CIDADE ECRÃ
Rui Filipe Torres


O CINEMA NOS TERRITÓRIOS DO ENSAIO E DA FICÇÃO DOCUMENTÁRIO

        


TODAS AS CARTAS DE RIMBAUD  -  Edmundo Cordeiro , 59´


            O grande auditório da Culturgest esteve quase cheio de um público interessado nesta incursão do cineasta e professor de cinema, Edmundo Cordeiro, pelo território do cinema ensaio.
            O filme passou na secção “ DA TERRA À LUA/ FROM THE EARTH TO THE  MOON”, apresentada como sendo o lugar para a visibilidade de filmes e realizadores que marcam a atualidade.  A formulação suscita seguramente leituras diversas,  e pode até ser essa a intenção primeira da sentença.  Seguro é que na cinematografia contemporânea o cinema-ensaio, território com alguma dificuldade de mapeamento, tem irrompido com vitalidade própria, profundidade, e o rigor formal da procura e da liberdade estética cinematográfica.
            TODAS AS CARTAS DE RIMBAUD , é disto mesmo um belo - essa categoria tão dada à especulação filosófica - exemplo. O filme, num registo entre o documental, a imagem pictórica, o trabalho de som, e o exercício da montagem como lugar próprio da especificidade fílmica,  ocupa um lugar com distinção e  sobriedade, neste território contemporâneo do filme que filosofa,  um dos territórios por excelência do cinema ensaio.
            João Maria Mendes, no seu livro “ O Filme que filosofa”, edição da Escola Superior de Teatro e Cinema, 2013 ,  na sinopse do livro escreve ” abordamos aqui as relações entre filosofia e cinema, uma área de estudos que, sobretudo a partir de Cinéma 1 e Cinéma 2 de Gilles Deleuze e da vasta reflexão de Stanley Cavell, se autonomizou no âmbito dos Film Studies e das Teorias do Cinema”. Na página 32 escreve: “ … a penetração de actos filosóficos no cinema e nos seus filmes é melhor entendida como um movimento minoritário que visa promover uma espécie de segunda natureza da obra cinematográfica, aproximando-a de um regime de enunciação que tenta apagar a fronteira entre os perceptos de Deleuze e Guattari e os conceitos da filosofia… personagens ou narradores assumem deliberadamente um discurso autoral ou que ajuda a construir esse discurso autoral, transformando-se explicitamente em parte dos seus argumentos e explananda como instrumentos de construção de uma teoria, então essa função  enunciativa/discursiva aproxima-se do modelo do  tercer cine  ativista, militante, revolucionário e herda sobretudo das suas práticas e experiência.
            Tudo isto significa que, de modo impressionista e sem atender à especificidade das reivindicações ou do enfoque prevalecente da filmosofia contemporânea, é possível pensar o “ o filme que filosofa”, genealogicamente, a partir do “filme militante” dos anos 60: o modelo por detrás de ambos seria neste caso o do “filme ensaio” tal como Godard ou Solanas o praticaram”.
            Conduzidos por Maria Filomena Molder e por Edmundo Cordeiro, ou por Edmundo Cordeiro e Maria Filomena Molder , — questão que o filme resolve, dado tornar claro que o olhar do cineasta se confunde perde e alarga no olhar da protagonista, a qual por sua vez conduz-nos aos territórios e cartas de Rimbaud—, somos convocados a uma cinematografia que faz da interrogação do prazer e das suas categorias, tema e forma.
            Ao longo do tempo do filme, outros tempos e toda uma constelação do pensamento de Maria Filomena Molder, vão sendo enunciados, e esse enunciado é continuamente povoado com ecos , vestígios, centros e periferias, coágulos e sangue solto, do Rimbaud e com ele, ou a seu propósito, chega-mos o pensamento de Kant e Goethe, leituras, reflexões que acompanham as investigações da protagonista viva do filme.
            Na relativamente recente entrevista ao jornal expresso (06.06.2016), é escrito que a Pertença de Maria Filomena Mónica é ancorada em Wittgenstein, kant, Benjamin, Dante, Broch.  Isto diz muito de alguém. Ela, a protagonista, foi professora de Estética na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas durante 30 anos. Percebe-se que a resposta às interrogações da estética é uma condição de abismo permanente, perguntas num esforço continuado e atento na tentativa de acalmar o desastre e alimentar a ideia, paradoxalmente, lugar da materialidade do humano.
            Rimbaud, é o poeta, e o filme diz-nos que apenas esses, os poetas, são portadores da ciência dos sábios, apenas aos poetas é possível o conhecimento.
             Rimbaud pertence a essa espécie de poeta santo e maldito capaz de incendiar e levar ao fogo almas e corpos inteiros,  maldito e por isso santo,  capaz da revelação, do esvaziamento e do pérfido, da experimentação da radicalidade do corpo como laboratório da produção do sentido. Milhões de em todo o mundo sabem o seu nome, mesmo que não conheçam uma frase escrita com o seu sangue.
            O filme diz-nos que todas as cartas de Rimbaud  não são muitas, o que não é igual a dizer a dizer que não são imensas e conduz-nos através da elevação do abismo. Informa-nos da radical impossibilidade do sublime, refresca em nós a eterna sede do belo. Recoloca-nos na dificuldade inultrapassável da falência da condição do humano.  Mas que outro desígnio nos pode ser mais útil do que a doçura venenosa dos desígnios inúteis? É provável que só estes nos possam salvar do horror total e colectivo de que somos capazes, comprovado, experienciado, em Auschwitz, mas também em Hiroshima,  no tráfico humano,  nos campos de refugiados e exércitos atuais de “no body” que trilham os construímos quotidianos de colares eléctricos incapazes da anulação da submissão e da dor.
            “ O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos” , escreveu Arthur Rimbaud.  O filme esse, transporta-nos seguros e sensatos ao pensamento do mundo moderno, mas ainda assim, com a força e o prazer suficiente da interrogação,  da inquieta angustia que permanece inamovível em nós.

Retrospectiva Vêra Chytilová



Pleasant Moments  - 2016  113 minutos , República Checa
Hezké Chvilky bez Záruky

           
            É sem concessões que o mundo irónico, patético e feroz e delicado de Vêra Chytilová, com a força de um tufão, irrompe continuamente no ecrã e invade de abismo o nosso ser.
            O filme tem como personagem central HANA e o consultório onde exerce a atividade de psicóloga.  Também ela, a psicóloga, vive à beira de um esgotamento nervoso.  São muitos os pacientes complexos que, continuamente, num ritmo alucinante de máquina de lavar invadem a sala do seu consultório, nervos rasgados, a dor no sangue, olhos em abismo, procuram uma resposta para o sentimento comum da falha e da perda, na falência do encontro com o outro. A última longa-metragem de Chytilová é uma tragicomédia humana, uma história de tormento diário escrita com a psicanalista Irmanonová.
            A camera, o olhar da realizadora, está quase sempre num movimento constante, colada aos personagens secundários e à protagonista, captando com intensidade diálogos e gestos dos corpos feridos, da dor que explode sem capacidade de exílio, olhos rasgados cegos pela tormenta dos quotidianos partilhados e estilhaçados no mercado falido dos afectos sempre em queda.
            A verdade que nos chega e invade a partir dos corpos que entram e saem de roldão no consultório, quase sempre tão histéricos na chegada como na partida, montanhas de humanidade em abismo, que  ali procuram rota, um mapear possível para um caminho a outros territórios que salvem o amor rasgado que enlaça e afunda as possibilidades de paz e a doçura do encontro partilhado com o outro.
            Sim, é sempre a falência do amor, e procura da superação dessa perda, o que  arrasta em loop continuo um conjunto vasto de pessoas, aquele lugar de mais verdade e impossibilidade do humanado do que aquele outro do recolhimento e do  silêncio nas seminais igrejas onde no transcendente se procura o remédio da dor incurável.
            Hana também se afunda,  a relação com a mãe, com o marido, com filho, todo está longe do mundo ordenado e estrategicamente objectivado visto no cinema produzido na grande indústria do sonho e flashes da Wall Street. Aqui a falência é real, suportada pelos protagonistas da sua história, nenhum outro paga a falência do próprio.  É com a força e a sensibilidade própria dessa condição do ser no feminino, que Hana,  mantem a cabeça erguida capaz para respiração necessária à eficaz circulação do sangue. O seu consultório é um ringue, um lugar onde a verbalização da dor chega com a violência do soco do pugilista,  olhos negros, explosões de sangue irrompem da carne flagelada,  lugar de medo, revolta, pânico, tensão permanente.
            É raro tanta verdade num filme.
            Não há salvação, só que ainda não o sabemos, diz Hana, sobre o olhar de Sigmund Freud, congelado na fotografia na parede do consultório, a alguém que procura na sua figura e voz a morfina para a dor que sente.
            É a uma cidade inteira, centenas de cidades, a que este pequeno conjunto personagens vividas neste filme nos transportam, neste olhar feminino e forte de revelação e abismo,  de dor e luta, de uma cineasta definitivamente maior na cinematografia europeia.
           




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