quarta-feira, 11 de março de 2015

DEMOCRACIA E CIBERVIGILÂNCIA GLOBAL. CITIZENFOUR


Confrontos de Poder, democracia e cibervigilância. CITIZENFOUR.  Os cinemas Medeia Filmes acabam de colocar em sala o filme de Laura Poitras. Trata-se de um excelente filme onde a fronteira documentário e ficção ( aceitando que existe) é assumidamente cruzada, isto é, o filme assume dar visibilidade à sua mecânica ficcional de construção, ao fabricar do documentário, bem como assume claramente um olhar determinado e autoral, o da realizadora Laura Poitras e do protagonista do filme Edward Snowden.  
O tema da cibervigilância global está na agenda das democracias modernas. 
Hoje a tecnologia disponível leva a que todo o cidadão possuidor de telemóvel e ligado à internet, de passe social, de cartão de identidade bancária, possa, através do cruzamento desses meta-dados,  ser vigiado 24 horas por dia durante toda a sua vida.
Para além disso, o cruzamento e análise de meta-dados, que leva à criação de perfis em diferentes áreas de  atividade, da saúde ao marketing político, possibilitando a identificação de estímulos para comportamentos  previsíveis (dentro das margens de erro definidas nas na construção das análises) é a realidade do nosso quotidiano, em particular no que se refere à identificação de estímulos de compra.
O que está em causa é fracturante porque coloca a ideia de liberdade, e a sua associação à ideia de privacidade, em confronto a prática  contemporânea vigente nos Estados, que paradoxalmente, são o garante em última instância dessa liberdade e privacidade.
É impossível disfarçar o desconforto, e esconder a discussão em qualquer gaveta de assuntos não convenientes.
Neste sentido o filme, como sempre tem acontecido com o cinema, reforça e transporta para a agenda pública o tema, o que obriga à discussão na agenda política. Só por isso, o que não é pouco, a recepção do filme e a sua exibição merece o melhor dos acolhimentos.
É claro que o facto de o cidadão, ter consciência, conhecimento desta realidade, obriga e sujeita a mesma realidade a transformações, Citando  Foucault,  “O poder está em toda parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares” ( 1988, p. 89). 

Como pode a democracia, os sistemas democráticos, conviver com a realidade da cibervigilância global, é a pergunta. A resposta tem de ser a sociedade democrática a encontrar.



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

ECRÃ DIGITAL a CASA DOS ESPELHOS DA HIPER REALIDADE

Duas características da identidade do digital são a sua característica rizomática, plástica, bem como a velocidade, não só do que chega, é, ou vai permanecendo, mas do que se transforma. Vem isto a propósito da materialidade do ecrã, ou dos ecrãs visto que hoje, como já foi afirmado por Gilles Lipovetsky e Jean Serrooy, vivemos a proliferação dos ecrãs, ou a sociedade do ecrã global e, se assim é, foi o digital que o permitiu. Paradoxalmente, a esta proliferação de ecrãs, não corresponde ou não equivale a uma proliferação criativa, mas à redução do universo criativo, pela repetição do mesmo modelo nos diferentes ecrãs, ainda que com as necessárias adaptações a cada ecrã especifico, formato, tamanho de letra ou imagem, duração temporal, etc. Ou seja, adaptações de forma do mesmo modelo de conteúdo aos vários formatos de ecrã em constante proliferação.

A materialidade assume nos ecrãs contemporâneos a sua condição eléctrica, rizomática, a super velocidade, e não já a matéria densa, o peso dos matérias, terra, madeira, ferro, água ou fogo. Tudo é agora sempre a representação da própria matéria, pelo que, com propriedade, é o simbólico a verdade material que ocupa e se revela no mundo dos ecrãs, que é o mundo em que vivemos. Ainda que a matéria permanece no movimento continuo do corpo dos electrões, no vai e vem constante das descargas eléctricas. É uma materialidade construída das relações da inter materialidade. 

Esta nova condição visivel da matéria, aponta para uma vasta área de pesquisa possível em que a tradicional dicotomia natureza - artificialidade  e também espirito - matéria vão encontrar novas formulações e, arrisco afirmar, ainda que no momento de forma intuitiva, a anulação dessa velha dicotomia, abrindo espaço a um novo momento do pensamento Ocidental a que chamo O Pós-Renascimento. Mas este é um assunto em work progress  e não é o agora o momento para muito mais do que esta breve sua enunciação. 

O tema deste Ecrã Digital como Casa dos Espelhos da Hiper Realidade é a construção e fragmentação do real, modelo de abordagem construtivista nas ciências sociais e humanas, que nos fala sobre a nossa percepção do real enquanto construção, em grande parte mediada, e que, no que se refere à construção do espaço da opinião pública, e também da construção cultural, essa mediação é em grande parte feita pelos conteúdos que invadem todos os ecrãs que nos envolvem. 

A questão que importa reflectir - mais do que obter respostas com pretensões totalizantes -, é sobre o qual o papel da produção de conteúdos, e do cinema em particular, nesta segunda década do séc. XXI, num mundo de elevada complexidade, com fluxos constantes e em quantidades não quantificáveis de informação, entre pessoas e organizações, de todas e em todas as geografias do globo.

 A internet está a mudar configurações sociais e políticas no mundo.“A Internet não é um instrumento de liberdade, nem é uma arma para exercer o domínio unilateral. A experiência da Singapura é um bom exemplo.  Dirigida por um Governo forte e capaz, Singapura abraçou plenamente a modernização tecnológica como instrumento de desenvolvimento. Simultaneamente, está considerada como um dos sistema autoritários mais sofisticados da História.  Para tentar conciliar modernização e autoritarismo, o Governo de Singapura generalizou o usa da Internet entre as seus cidadãos, mantendo ao mesma tempo o controlo político sobre a sua utilização, exercendo censura sobre os fornecedores de serviços Internet. Não obstante, a investigação de Ho e Zaheer (2000) demonstra como, mesmo em Singapura, a sociedade civil foi capaz de utilizar a Internet para ampliar o seu espaço de liberdade, articular a defesa dos direitos humanos e propor pontos de vista alternativos no debate político. “ 1


A importância do cinema independente é, a possibilidade de este existir liberto dos “modos operandi”, regulados e institucionalizados, de poder produzir narrativas ou experiências  de comunicação cinematográfica sobre todos os aspectos da realidade social e humana, e não apenas a repetição com novas roupagens dos modelos testados, conhecidos, e capazes de gerar lucro. 

Se fizermos o enfoque no suporte, no media, temos claramente uma nova possibilidade de distribuição que se pode caracterizar pela interactividade, rapidez, hiper-texto, multimédia. Uma maior facilidade de segmentação de públicos, a possibilidade de alojamentos diferenciados, redes sociais, youtube, sites dos órgãos de comunicação, blogger esfera,  ecrãs moveis.  O que implica, necessariamente, um conjunto de novas técnicas para a produção, ao nível da construção das narrativas.

É a proliferação de ecrãs uma mudança de paradigma? Não necessariamente. Bastará um olhar empírico sobre a produção mainstream nos Novos e Velhos Media, para afirmar que estes são instrumentos centrais para a afirmação e manutenção dos discursos do Poder. E bastará também percorrer as centenas de canais disponíveis e ao alcance de clik no botão do comando, para verificar a dificuldade de encontrar novos conteúdos, ou seja, encontrar mais do que a repetição do mesmo modelo.
Sabemos hoje, à uma linha de investigação na sociologia do conhecimento que o afirma, que os média são a mais eficaz máquina para a produção massificada do bio-político,  homens e mulheres da nossa contemporâneadade cujas percepções e construções do real, são por eles mesmos objecto de auto-censuras regulatórias, tornando-se sujeitos auto-submetidos aos discursos dominantes.
A multiplicidade de écrans é mais uma casa, onde se reflectem e encontram e multiplicam, os milhões de espelhos da hiper-realidade, mas em quase todos, apenas é visível simulacros do diferente.

Ainda assim, a nossa casa comum, cheia de fragmentos, desarrumada, civilizada, normativa, indisciplinada, racional e selvagem, com espelhos inteiros e partidos, desde os das casas dos espelhos das feiras populares aos espelhos do palácio de Versailles que podem até, por vezes, reflectir lustres construídos de tampões, está mais rica, e cabe ao autor, a sempre difícil tarefa da construção da obra. 

Bibliografia

  1. Castells, Manuel; THE INTERNET GALAXY REFLECTIONS ON THE INTERNET. BUSINESS AND SOCIETY, pág. 197, Oxford University Press © 2001

  1. http://www.citi.pt/estudos_multi/ana_cristina_camara/interactividade.html