O MUNDO COMO ZOOLÓGICO DO HOMEM, breve
referencia a 2017 e à nova lei do cinema que se avizinha
É
da nossa natureza de animal enlouquecido, atores e observadores que somos da
nossa passagem no mundo, a tentativa de ver em permanência com olhar de
satélite o planeta que habitamos,
criamos e também destruímos. É o olhar humano mais próximo da ideia do lugar do
olhar de Deus, entretanto múltiplas vezes assassinado e múltiplas vezes trazido
às nossas vidas.
Mesmo atendendo ao empenho fabril
com nos entregamos à alienação da nossa condição trágica perante o nada. Do inevitável
choque sem cinto de segurança com a morte, condição necessária ao “carpie
diem”, é da nossa condição de falência enquanto máquina antropológica, a
inquietude e a observação permanente.
São
as nossas práticas como seres sociais, condição do humano, que nos demonstram a
condição de animal enlouquecido. A loucura pode ser heroica, gloriosa, trágica,
permanente ou passageira, em função do pensamento dominante da época em que o
pensamento e ações concretas se produzem, ou num tempo de análise posterior ao
acontecimento.
Somos
a mais bela máquina horrível. Belos assassinos de nós próprios e do outro (s).
É difícil o olhar distanciado e sem paixão sobre nós e sobre o outro.
O
tempo de vida de cada maquina antropológica em falência que cada um é vai se
esgotando, felizmente na maior parte do tempo sem a permanente consciência
dessa inevitabilidade. Mas a vida adiciona
esse lugar do vazio cada vez mais preenchido dos companheiros mortos. No
entanto, nesta esgadanhar da fera ao civilizado é quase sempre desse outro
lugar da vida, que nos chegam as ressonâncias e até asserções mais orientadoras
e construídas, o presente é produto do passado. Aqui neste lugar do mundo, é a
voz milenar de Confúcio e Buda que ecoa em outras de um tempo mais próximo, Jorge
Álvares, Camões, Marx, Nietzsche, Sartre, Bergman, Marilyn, Artaud, sim, são muitas, quase infinitas as vozes
que nos habitam. Parece ser tendencialmente aceite que o pós-moderno já não nos
serve e a hiper realidade é uma constatação do real com toques glamorosos de
uma maquilhagem Dior. O fracasso absoluto dos corpos afogados no mediterrâneo
no movimento continuo do fluxo de gentes à procura do sonho da Europa, ou
apenas em fuga da miserável condição da ausência pão, o som dos inaudíveis
desastres interiores que a custo não queremos ouvir e com força de nervos
arrancamos da carne e vamos expulsando para redes de esgotos escondidas,
dizem-nos que é bom sermos felizes, supremamente gratos, e que para o sermos
não é possível abandonar esse querer primeiro da infância do mundo justo e
fértil.
Nesta
nosso mundo há vários mundos. São muitos e diferentes tempos sociais e
culturais que produzem os factos sociais que habitamos.
Há
um Oriente que afirma o sucesso da sua civilização milenar e simultaneamente de
enorme modernidade no mundo contemporâneo, e uma europa que se recusa a
olhar-se no melhor de si própria, envelhecida paradoxalmente pelo simulacro do
novo. É tempo do Pós-Renascimento. Não é suficiente o cartesianismo positivista
do iluminismo neste outro século, o XXI. Há por aqui a permanência de um
eurocentrismo bacoco e desajustado do real, nos quotidianos da informação
televisiva. A banalização do pensamento medíocre em doze letalmente excessiva.
Para
onde caminhamos é a pergunta, que beleza e horror construímos quotidianamente
nas nossas fábricas, campos, cidades? As respostas são abertas, mas pergunta é
sempre e continuamente necessária.
A legitimação da Arte, passada a euforia dos melhores e piores
de 2017, anuncia-se o chegar de uma nova lei para Cinema em Portugal, que
continua a partir de um lugar mais pequeno do que o visível a partir de
Portugal dos Pequeninos.
Neste
2017 a terminar vi muitos filmes. Dos que vi, destaco S. JORGE, do Marco
Martins - produção Portuguesa, filme premiado no Festival Internacional de
Macau e outros, Veneza é deles. Já aqui escrevi sobre este tremendo filme. Noto
também a obra COMBOIO DO AÇUCAR, do Licínio Azevedo - coprodução
Portugal-Moçambique, filme que também tive a oportunidade de referenciar por
altura do Fantas Porto 2017. Outros felizmente existem que merecem destaque,
mas não este o assunto.
A
atividade do cinema em Portugal continua a ser olhada pelos decisores políticos
como coisa menor, com a qual não importa perder tempo nem pensar recursos,
estratégias, objectivos, para além daqueles gerais sempre bem enunciados nos
preâmbulos do enquadramento legislativo - ao abrigo do artigo 78º Capítulo III
no seu ponto 1 e 2, alíneas a) b) c) d) e) da Constituição da República
Portuguesa .
No
entanto na prática a menoridade atribuída à produção e fruição cultural é uma
evidência, desde logo no orçamento geral do Estado, mas também, e muito, nos
articulados específicos e no funcionamento do ICA- Instituto Público ao qual
cumpre desenvolver e cumprir as políticas públicas para o cinema. A realidade
que o cinema vive é um ICA que tem como boa filosofia o lavar das mãos como na
lenda bíblica de Pôncio Pilatos (relato
de Mateus). A nova lei é de que se
avizinha a publicação é uma versão com nova data da anterior. Ao que parece,
também nestas matérias, é urgente convocar o olhar do Presidente Marcelo , esse
gigante dos afectos e do bom senso esclarecido, é que, para além do lugar do
cinema enquanto atividade económica a “anos-luz” da sua potencia entre nós, há
esse outro lugar mais difícil e menos preciso em quantificar, mas de inegável
relevância; o lugar do cinema na identidade, na construção do património
simbólico, na estruturação de comportamentos, nas cinevisões do mundo, no
desenvolvimento das cidades criativas e política externa dos Estados
contemporâneos.
