CIDADE ECRÃ
Rui Filipe
Torres
37º Festival
Internacional de Cinema do Porto
“O RUÍDO NÃO MATA MAS O MEDO
SIM”
Dia
1 de Março, 16h 30m, o ecrã do grande
auditório Manuel de Oliveira no Teatro do Rivoli abriu-se para o formato 2:39.1
A projeção do COMBOIO DE SAL E AÇUCAR, filme de Licínio de Azevedo, com
argumento a partir do livro com o mesmo nome que o mesmo autor escreveu,
começa. É uma viagem iniciática e transformadora que se inicia, durante 93
minutos, onde a contenção e a exuberância do continente África são expressão da
voz humana sitiada em corpos e almas em guerra com as trevas e as visões de luz
Em
1988, a independência de Moçambique, a afirmação do direito de soberania e
consequente anulação do estatuto de território colonizado pelo império
português desde o séc. XV, tinha 13 anos. No entanto o mundo da geopolítica,
dividido entre livre e marxista, mantinha em África uma guerra pelo poder. É em
novembro de 1989 com a queda do muro de Berlim, que se precipita o fim de uma
visão do mundo divido em dois blocos ideológicos e políticos.
Em
1988, em Moçambique, a guerra colonial continuava, eram outras as potências
mandatárias é sabido, e o nome dado à guerra outro.
Moçambique
está em plena guerra civil. A viagem no comboio puxada pela locomotiva D 67,
que liga Nampula ao Malawi, é uma oportunidade de comércio para as mulheres com
a sabedoria da exigência da sobrevivência num mundo de terror e
delinquência com força normativa. Trocam
sal por açúcar e garantem desta forma a subsistência das famílias. Uma viagem a
5km/h numa linha sabotada, que expõe e
torna vulnerável todos aqueles que a fazem, uma viagem em que se confronta a
esperança e o pesadelo da guerra.
Lorenzo
Esposito, programador do Festival de Locarno, festival em que o filme esteve
selecionado escreveu: “ Um relógio que já não marca o tempo. A camera mergulha
no cais de uma estação perdida. Um grande grupo de pessoas, maioritariamente
mulheres e crianças, ali se sentam em silêncio à espera. ...
trabalhadores, observados de longe por
um grande contingente militar trabalham para fortalecer o comboio que parte.
... um Western africano. Estamos a
bordo de um comboio de amor e guerra, em direção ao Inferno ou ao Céu, onde as
mulheres têm que se defender da raiva dos soldados, apesar de algumas se
apaixonarem por eles e darem à luz os
seus filhos... o caminho é longo e perigoso, mais de 700 quilómetros que
tresandam a sangue e a morte, interrompidos por sabotagens contínuas: assaltos
por milícias ao serviço de senhores da guerra e ataques suicidas por tropas sem
nome.
...
Os picos de violência, as mortes mais dolorosas e até os duelos pareciam ansiar
fugir para fora do ecrã. São restringidos, não por serem anti-espetaculares,
mas para contar a história da dignidade melancólica de um povo roubado dos seus
sonhos e esperanças.”
Sim, Western africano, tal como
Apocalypse Now ( Coppola 1979) é um a Western no Vietnam ,
ainda que aqui, sejam bem menos os
planos americanos ( o plano western por definição) , embora , sejam claramente
assumidos no momento do combate final entre o herói , o tenente Taiar, que mais
que a guerra, sonha é a paz , a agronomia e a tranquilidade de uma vida normal
em família como modo de vida, e bandido,
o Alferes Salomão. que tornou a guerra sem lei a marca do seu carácter .
É
Licínio de Azevedo quem diz sobre estes dois personagens que “ o Taiar, é um tenente com mentalidade
moderna, científica, que estudou numa academia militar na Ucrânia, ex-União
Soviética e que tem um pensamento diferente por ser jovem e ter recebido
formação fora do país. O seu antagonista é o alferes Salomão, que ganhou a sua
patente na guerra. É um grande combatente mas tem um visão mais fechada.
Sente-se domo do mundo, dono das mulheres, do comboio.”
Licínio Azevedo, cineasta formado
pelo Instituto Nacional de Cinema de Moçambique, nos anos que se seguiram à
independência, teve como professores , Jean Rouch, Godart, Ruy Guerra, é mestre nesta sua assinatura
cinematográfica, capaz de uma contenção, de um fechamento dum comboio que se
move enclausurado num carril a céu aberto, num jogo permanente de tensão entre
a escuridão e o desejo da luz. E não é fácil resistir à grandiosidade da expansão territorial do
continente Africano, mas Licínio Azevedo, consegue permanecer perto das almas
dos homens e mulheres, sem que o fora de campo deixe de estar presente no ecrã,
não estando. Por vezes, quando a respiração da narrativa o permite, temos um
plano geral da exuberância do território Africano, mas, quase sempre, num trabalho
de grande assertividade, são personagens construídos com uma sabedoria de fino
recorte, que a camera nos dá a ver e sentir.
Ainda sobre o universo do
personagens diz-nos o cineasta:” Neste filme há três grupos de personagens; os
militares que protegem e controlam o comboio, entre os quais há os bons e os
maus; os trabalhadores dos caminhos de ferro que permitem que o comboio siga o
seu caminho e que são a intelligentsia;
e os civis, sobretudo mulheres, que viajam e que representam a luta humana mais
básica: a sobrevivência.
É como um microcosmos onde coexistem
muçulmanos, cristãos e animistas, numa atmosfera de traições, ataques e morte,
mas também de esperança renovada. “ Quando o sol nasce todas as esperanças se
renovam”, já dizia o meu velho Hemingway. E assim se vai mantendo o equilíbrio,
porque dentro do comboio todos os passageiros arriscam as vidas. Durante a
guerra temos tendência a diferenciar os bons e os maus, mas isso nem sempre é
fácil. Aqueles que atacam o comboio são terríveis mas por vezes, aqueles que o
deveriam proteger, são piores.”_
Há personagens outros, bem desenhados,
magistrais, o Caravela, uma espécie de assistente de maquinista, padre e
febril nas sua preces religiosas,
ou comandante, carismático, animista, líder incontestado.
O filme,
uma co-produção, Portugal, Moçambique, França, Brasil, chega ao Fantasporto
após seleção em Locarno e um prémio no Egipto.
Veremos o que o 37º Festival
Internacional de Cinema do Porto lhe pode oferecer.





