DIAMANTINO
e o cinema Bimby
Estreou
a 4 de Abril em 22 ecrãs em Portugal, o filme vencedor do grande prémio da
crítica do festival de cinema de Cannes. DIAMANTINO,
96 minutos, já passou em perto de 60 Festivais Internacionais, entre estes;
Toronto International Film Festival, London BFI, New York Film Festival, ou
Cannes como referido.
Teve
estreia comercial de cinema no Brasil e em França. Em Portugal, nos primeiros 4
dias de exibição em sala, foi visto por 3.898 espectadores, a que
corresponde a receita bruta de 20.967,04
euros. É provável que para além dos elogios da crítica tenha sucesso comercial.
Quando
o filme começa, a história já aconteceu e o protagonista narra-a com o recurso
quase constante à voz-off, é uma viagem por dezenas de excentricidades esta em que
acompanhamos Diamantino, é esse o nome do protagonista, e
que nos narra os momentos próximos da falência da sua carreira de hiper-estrela
do futebol mundial.
Fora
dos relvados procura de um novo sentido para a vida, e, apesar de só querer fazer o bem, como pelo
próprio nos é dito, ou talvez por isso, entra
numa odisseia delirante construída como alguns pratos na cozinha doméstica
contemporânea.
A
construção narrativa resulta de uma mistura de ingredientes como nas máquinas de
cozinha Bimby; é introduzida uma ou duas
cenas que gravitem em torno do neofascismo, mais duas ou três, em torno da crise
dos refugiados, um nó narrativo em torno da ficção científica aplicada à modificação
genética, ao trans-género, duas ou três ideias com capacidades especulativas e
facilitadoras do género comédia, a ideia parola e simultaneamente
multimilionária do jogador de futebol de topo mundial caído em desgraça, carrega-se
no botão, a coisa mistura, e saí a narrativa. Sai sempre uma coisa qualquer. Saí
uma história com um tempo narrativo, em que questão da verosimilhança, do
verosímil, sendo sempre um aspecto central para a adesão do espectador ao que
vê e vive no ecrã, não é a questão central.
Ou pelo menos se tomarmos a questão da verosimilhança enquanto cópia,
reprodução do modelo. Estamos em território do cinema onde
por definição tudo é possível, e mais do que um mimetismo do real nos
territórios da ficção, o que se precisa para admissibilidade por parte do
espectador da possibilidade do real, são
pequenos toques, lugares de contacto, raspões, ou, se possível, toques em
profundidade perfurando a carne e chegando ao osso da realidade, o cerne ou
átomo primeiro. Acontece que este cerne
da realidade em territórios do cinema não tem a obrigatoriedade de ser uma
imagem reprodutora a realidade pré-existente ao filme.
O
cinema tem esta coisa fantástica, todos nós perante o ecrã nos disponibilizamos
para viagem, e aceitamos outro regime estético do que o da colagem ou da
figuração do real.
E
é aqui que o filme DIAMANTINO se joga, e, paradoxalmente se ganha, e se perde.
Há elogios rasgados em vários jornais; “Divertimento leviano e seriedade
ideológica” jornal Público, “É um delírio
de monta raro no cinema Português”, jornal Expresso, “Diamantino é um objecto
de uma energia nova no cinema Português”, estamos próximos, mas não tanto assim,
do genial cinema do Federico Felini, ou caminhado na direção do país do Brexit,
e de outra estética cinematográfica, dos filmes Monty Python. O que por si não retira qualquer valia ao
filme, mas mais do que a singularidade da obra,
DIAMANTINO confirma um dos caminhos que o cinema contemporâneo tem vindo
a percorrer, o da sucessão episódica de
acontecimentos numa estrutura narrativa fragmentada de múltiplas ideias que
chegam e partem sem particular discussão ou profundidade.
Diamantino
confirma a tendência do cinema contemporâneo neste trabalhar da eficácia da
desconexão, ou nas palavras de Jaques Rancière, na tradução de José Mirando no “O
Espectador Emancipado”:
“ ...
a eficácia estética significa propriamente a eficácia da suspensão de toda e qualquer relação direta entre a produção
das formas da arte e a produção de um
efeito determinado sobre um público determinado....uma rotura entre as produções das diversas modalidades
artísticas de saber-fazer e fins sociais definidos,
entre formas sensíveis, as significações que nelas podemos ler e os efeitos que podem produzir. Dizendo de
outra maneira, trata-se da eficácia de um
dissentimento. O que entendo por dissentimento não é um conflito de ideias ou de sentimentos. É o conflito de
vários regimes de sensorialidade. “
Afirmam
os realizadores Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, que nesta sua primeira longa-metragem tinham
como assunto “...fazer um filme principalmente sobre uma pessoa muito rica que
adotava uma pessoa muito pobre e os problemas políticos inerentes a essa
situação”. É uma premissa válida como qualquer outra, seguramente uma linha
narrativa de grande potencial para o desenvolvimento de uma telenovela, género
que também precisa, e muito, de renovação. No filme Diamantino, os criadores
do produto telenovela podem encontrar um toque seminal para um caminho onde a
comédia excêntrica se torne núcleo estético central no desenvolvimento da
narrativa. Se assim vier a acontecer estaremos num processo ao contrário do
caminho percorrido pelo Pedro Almodóvar, que tão exemplarmente explorou o
Kistch na filmografia, partindo muitas das vezes do pequeno ecrã, ampliando a dimensões gigantes a intensidade
dramática das personagens nas diversas situações e ambientes e de um quotidiano
urbano vivido nos inícios de uma “Madrid
me mata”.
As
linhas de filiação no cinema contemporâneo são sempre muitas e diversas, um dos
filmes que pode ser convocado a propósito do DIAMANTINO , embora com outro tema
e um outro exercício, mas onde o “excêntrico” é o filão explorado é o BORAT, de 2007.
O filme de
Larry Charles; Borat: Cultural
Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, produção dos EUA. Estreou em 837 salas nos Estados
Unidos, e no primeiro fim de
semana fez 26,4 milhões de dólares.
Neste filme, Borat Sagdiyev (Sacha Baron Cohen), é um
jornalista do Cazaquistão que resolve deixar o seu país e viajar para os
Estados Unidos, com a intenção de fazer um filme documentário. Durante sua
viagem pelo país, ele conhece pessoas reais que, ao reagir ao seu comportamento
primitivo, expõem o preconceito e a hipocrisia existentes na cultura americana
nos dias de hoje. É certo que aqui estamos num outro regime estético, o de um cinema que assume o híbrido, a
contaminação entre cinema e documental na sua construção e processo.
No entanto se repararmos na caracterização
do personagem principal que é apresentada como se segue:
“ Filho de Asimbala Sagdiyev e Boltok, o
Estuprador — de quem também é neto e
genro—, nasceu em 30 de julho de 1972 na vila fictícia de Kuzcek,
no Cazaquistão. Diverte-se jogando pingue-pongue, dançando música
disco e
fotografando mulheres enquanto elas vão ao WC. Viúvo, comemora a
morte da primeira esposa Oxana — violentada e comida por um urso — que, apesar
de cozinhar bem e ser boa no arado, passado três anos de a ter comprado — ao
completar 15 anos — começou a ficar com a voz grossa, ganhar pelos no corpo e
ficar com a "vagina parecida com a manga de um feiticeiro".
Tem um filho de
13 anos chamado Hooeylewis e dois gêmeos de 12, Biram e Bilak, sendo também avô
de dezessete crianças — algumas ele planeja vender para a popstar Madonna. Na sua
família ainda estão a irmã mais velha Natalya — a quarta melhor prostituta do
país (sexta durante a turnê das Pussycat Dolls) — e o caçula Bilo
— retardado mental com a cabeça em forma de espiga e mais de duzentos dentes.
Em sua viagem aos "US and A",
como chamava os EUA, em busca de um romance com Pamela
Anderson, conheceu Luenell nas ruas, com a qual uniu laços.
Respeitado
apresentador de telejornal na sua pátria natal, é membro do quadro de honra da
Universidade de Astana, onde se formou com louvor
não só em jornalismo mas em inglês e no estudo de pragas. Prestou durante longos anos serviços
ao governo criando cinco novas pragas que devastaram cinco milhões de cabras
no Uzbequistão, sem contar a época em que fez
gelo, foi guardador de sêmen de animais, caçador de ciganos e
removedor de pássaros mortos em um computador. Pagão até
fazer amizade com os pentecostais e converter
toda a sua vila ao cristianismo, admira
a visão política de Joseph
Stalin por causa do forte e poderoso pênis do ex-ditador
russo e apoia o presidente Bush na
sua guerra de terror.
Encontramos a extravagância e o delírio como eixo e fonte
para a caraterização do personagem, o
que nos aproxima e muito, embora que um grau de complexidade substantivamente
menor, da caracterização do personagem Diamantino.
Em DIAMANTINO o personagem principal, - Carloto Cotta -, é um jogador de futebol galáctico hiper famoso com pronuncia das ilhas, uma
sonoridade próxima dos Açores, faz muita publicidade, e as montanhas de
dinheiro que ganha são geridas pela família, no caso duas irmãs gémeas, essenciais
na trama, são elas as antagonistas e simultaneamente coadjuvantes do herói da
narrativa. As terríveis gémeas acabam por estar na origem de um ataque cardíaco
fulminante que retira a vida ao pai. Um crime, acidente, rapidamente
secundarizado nas peripécias da narrativa. Este herói tem uma particularidade,
uma ingenuidade próxima da debilidade mental e um conhecimento do mundo para
além “dos toques na bola” muito
incipiente. Tem ainda uma característica definitivamente fundadora da relação
que o público estabelece com o personagem e com o filme, quando está em campo, os outros jogadores são por ele vistos como
cães de peluche gigantes, é a eles que
finta e ao lado deles que corre e pontapeia a bola na direção do golo na baliza
adversária. É uma personagem caricatura sem particular evolução
do arco narrativo, ou quase, dado que o
filme é estruturado em 3 atos, - como são quase sempre todas as histórias do cinema e na literatura
oral e escrita-, e no final o protagonista está diferente, descobre e vive o
amor físico com o filho adoptado.
Incesto e homossexualidade? Não é
bem isso, primeiro porque o filho na
verdade é filha, e segundo porque a adopção é falsa, resulta de um disfarce para
um trabalho de espia de encomenda para a jornalista com quem vive uma relação
amorosa e que está investigar possíveis escândalos financeiros de fuga aos
impostos do jogador galáctico.
Como referido, o argumento, segue a estrutura do 3 atos, e como tal
conta-nos uma história com principio meio e fim, aspecto em nada displicente para a relação dos públicos com a narrativa,
seja esta qual for e, no caso do cinema, ser excêntrica pode mesmo ser uma
vantagem, como é o caso.
No entanto o argumento
construído, assim parece, com a moderna Bimby que tudo cozinha, acaba por
cometer o erro do excesso de ingredientes com dosagem em quantidades próximas do aleatório, - mesmo sendo visível o cuidado com cenas
plantadas na linha do tempo que permitem o avanço e o final.
Fica excessivo mesmo num filme que
trabalha o excesso, uma paleta tão vasta de assuntos, como refugiados do norte
de áfrica, fuga os impostos, jogadores galácticos, Brexit, campanhas para as
eleições europeias, genética aplicada,
identidade trans-género. Mas é isto tudo
o filme, e se por um lado este excesso faz perder densidade por outro lado faz
ganhar excentricidade e mantem num muito razoável nível o interesse e o prazer
de acompanhar esta singular viagem fílmica.
O filme tem um departamento de arte
que não acompanha o excesso que carateriza o filme, duas irmãs gémeas com
grande destaque e um protagonista que se entrega sem reservas ao filme, e um
pai que estranhamente parece não tem o sotaque dos filhos. Ainda assim é um
filme bem construído e ousado no panorama nacional.
Não é todos os dias que se vê um
jogador galáctico que quer só “fazer o bem” e alimentar com crepes de Nutella e
Chantily essa gente negra para ele
desconhecida que atravessa quase a nado o mediterrâneo para chegar ao paraíso
do continente Europeu. Um continente que vive e se olha a si próprio, por
vezes, como neste caso, com ironia e
sátira. O filme teve efeitos especiais
da Irmã Lúcia e apoio financeiro do ICA, Euro-Image, e Fundo Ibero-Americano. Vai continuar em cartaz e é uma das produções
que vai marcar a colheita cinematográfica deste ano nas salas nacionais.
