AL BERTO em filme versão pop gay
O
filme AL BERTO, do realizador Vicente Alves do Ó, tem estreia comercial a 5 de Outubro de
2018. Um filme é sempre o resultado de duas
coisas, o olhar de quem o filma e as condições de produção que o circunscreveram.
Este axioma encerra e contém todos as variáveis, equipas artísticas e técnicas,
contextos, estéticas e pensamento cinematográfico, distribuição e mercados.
Este AL BERTO é o do Vicente Alves do Ó.
Na
nota biográfica que se pode ler na página da Assírio & Alvim, editora da obra poética do AL BERTO, prémio PEN de
poesia em 1987, lê-se : “Poeta
e editor português, de nome completo Alberto Raposo Pidwell Tavares, nasceu a
11 de Janeiro de 1948, em Coimbra, e faleceu a 13 de Junho de 1997, em Lisboa.
Tendo vivido até à adolescência em Sines, exilou-se, entre 1967 e 1975, em
Bruxelas, dedicando-se, entre outras atividades, ao estudo de Belas-Artes.
Publicou
o primeiro livro dois anos depois de regressar a Portugal.
Em mais de vinte anos de atividade literária, a expressão poética assumida por Al Berto, o pseudónimo do autor, distingue-se de qualquer outra experiência contemporânea pela agressividade (lexical, metafórica, da construção do discurso) com que responde à disforia que cerca todos os passos do homem num universo que lhe é hostil. Trazendo à memória as experiências poéticas de Michaux ou de Rimbaud, é no próprio sofrimento, na sua violenta exaltação, na capacidade de o tornar insuportavelmente presente (nas imagens de uma cidade putrefacta, na obsidiante recorrência da morte e do mal, sob todas as suas formas) que a palavra encontra o seu poder exorcizante, combatendo o mal com o mal. É neste sentido que Ramos Rosa fala de uma "poesia da violência do mundo e da realidade insuportável": "a opacidade do mal ou a agressividade do mundo é tão intensa que provoca um choque e um desmoronamento geral", mas "à violência desta destruição responde o poeta com uma violenta negatividade que é uma pulsão de liberdade absoluta, que procura por todos os meios o seu espaço vital.", sublinhando ainda a forma como esta espécie de "grito de fragilidade extrema e irredutível do ser humano, do seu desamparado infinito, da sua revolta absoluta e sem esperança", se consubstancia, ao nível do estilo, num ritmo "ofegante, precipitado, como um assalto contínuo feito de palavras tão violentas como instrumentos de guerra" (cf. ROSA, António Ramos - A Parede Azul. Estudos Sobre Poesia e Artes Plásticas, Lisboa, Caminho, 1991, pp. 120-121).”
Em mais de vinte anos de atividade literária, a expressão poética assumida por Al Berto, o pseudónimo do autor, distingue-se de qualquer outra experiência contemporânea pela agressividade (lexical, metafórica, da construção do discurso) com que responde à disforia que cerca todos os passos do homem num universo que lhe é hostil. Trazendo à memória as experiências poéticas de Michaux ou de Rimbaud, é no próprio sofrimento, na sua violenta exaltação, na capacidade de o tornar insuportavelmente presente (nas imagens de uma cidade putrefacta, na obsidiante recorrência da morte e do mal, sob todas as suas formas) que a palavra encontra o seu poder exorcizante, combatendo o mal com o mal. É neste sentido que Ramos Rosa fala de uma "poesia da violência do mundo e da realidade insuportável": "a opacidade do mal ou a agressividade do mundo é tão intensa que provoca um choque e um desmoronamento geral", mas "à violência desta destruição responde o poeta com uma violenta negatividade que é uma pulsão de liberdade absoluta, que procura por todos os meios o seu espaço vital.", sublinhando ainda a forma como esta espécie de "grito de fragilidade extrema e irredutível do ser humano, do seu desamparado infinito, da sua revolta absoluta e sem esperança", se consubstancia, ao nível do estilo, num ritmo "ofegante, precipitado, como um assalto contínuo feito de palavras tão violentas como instrumentos de guerra" (cf. ROSA, António Ramos - A Parede Azul. Estudos Sobre Poesia e Artes Plásticas, Lisboa, Caminho, 1991, pp. 120-121).”
No
filme do Vicente Alves do Ó, conhecemos
um Al Berto nos anos de 1975, em Sines, regressado do seu exílio em Bruxelas.
Importa
notar que 1975 é o ano quente, o tempo de maior tensão social e cultural vivido
na sociedade portuguesa depois dos anos de convulsão do final da regime
Monárquico e implantação da República nos anos de fronteira do séc. XIX para o
Séc. XX.
O
mundo estava ainda dividido em mundo livre, o mundo Ocidental de economia de
mercado aberto, e o mundo para lá da “cortina de ferro” , a Europa Oriental e a
sua zona de influência , de sistema
comunista, mercado planificado e onde o Estado era assumido como um poder de
classe, mas naquele caso, a classe dos proletários.
Em Portugal sonhava-se as
possibilidades do mundo. Sines avançava nos projetos já anteriormente decididos
( Estado Novo) da grande indústria da energia a partir do petróleo. Sines, a vila porto de pesca, vivia novos
enxames, gente que chegava das ex-colónias e ali procurava um recomeço de vida,
e mão de obra à procura do salário.
A Sines chegava também o poeta. A casa apalaçada da sua família tinha, como
tantas outras, sido objecto de expropriação.
Desabitada, era o lugar ideal para um Maio de 68, não em Paris, mas em
Sines. Este é o contexto.
O filme mostra um AL BERTO em que o
seu capital de transgressão pouco mais parece ser do que o desregramento e o
amor homossexual . Poderá a muitos não parecer pouco. Para mim é.
Pouco se percebe, para quem não o saiba já, do tempo social e histórico
em que a narrativa acontece. Pouco se sabe da profunda sensibilidade estética,
do homem que na sua vida e já naquele tempo teve como lugar absoluto a sua obra
literária.
Por essa altura, 1974/75 escreveu
“ À PROCURA DO VENTO NUM JARDIM D’ AGOSTO” , em “atrium” ,
lê -se:
“ luta de sonâmbulos animais sob a
chuva, insectos quentes escavam geometrias de baba pelas paredes do quarto, em
agonia, incham, explodem contra a límpida lâmina da noite, são resíduos
ensanguentados do ritual.
na cal viva da memória dorme o
corpo. vem lamber-lhe as pálpebras um
cão ferido. acorda-o para a inútil deambulação da escrita.
abandonado vou pelo
caminho de sinuosas cidades, sozinho, procuro o fio de néon que indica a saída.
eis a deriva pela insónia de quem
se mantem vivo num túnel de noite, os corpos de Alberto e Al berto vergados à
coincidência suicidaria das cidades.
eis a travessia deste coração de
múltiplos nomes: vento, fogo, areia, metamorfose, água, fúria, lucidez, cinzas.
ardem cidades, ardem palavras,
inocentes chamas que nomeiam amigos, lugares, objectos, arqueologias, arde a
paixão no esquecimento de voltar a dialogar com o mundo, arde a língua daquele
que perdeu o medo.
germinam fluidos mágicos por dentro
da matéria contaminada do corpo, os órgão profundos gemem assustados pelo
excesso, nunca mais voltámos a encontrar um paraíso. a pausa para respirar não
existe, o tempo dos grandes desertos absorveu a seiva dos adolescentes dias.
a insónia, essa ferida cor de ferrugem,
festeja noctívagas alucinações sobre a pele. no ácido écran das pálpebras
acendem-se quartos alugados onde pernoitamos. são enfim brancos esses pedaços
de memória onde dávamos abrigo e sossego aos corpos.
para sobreviver à noite decidimos
perder a memória. cobríamo-nos com musgo seco e amanhecíamos num casulo frio,
perdidos no tempo, mas, antes que a memória fosse apenas uma ligeira sensação
de dor, registámos inquietantes vozes, caminhámos invisíveis na repetição
enigmática das máscaras, dos rostos, dos gestos desfazendo-se em cinza.
escutámos o que há de inaudível em nossos corpos.
era quase de manhã no fim do
cansaço. despertava em nós o vago e trémulo desejo de escrever.
... “
O filme AL BERTO do Vicente Alves do
Ó, acontece, propõe-se acontecer no
tempo desta escrita, e tem o mérito de nos permitir regressar a ela, de exigir
mesmo esse regresso a todo do corpo da escrita do poeta, porque é aí, e só aí, que
sentimos o batimento do sangue, o sal das lágrimas, o espanto e o horror do
mundo, neste combate em que raramente se passa o estágio de aprendiz ofuscados
na euforia das guitarras eléctricas e esparsos fios de mel.
Vicente Alves do Ó, é um realizador
inteligente, sabe o que quer, sabe onde está. Sabe também que cenas como a
vandalização da livraria que coloca no filme não aconteceram. Sabe que a
homossexualidade e o comportamento transgressivo da norma sexual é um dado
permanente e comum, embora sempre um interdito, no quotidiano das comunidades,
sejam rurais ou citadinas, agora ou ontem.
Mas a associação direta do artista, da sensibilidade inerente à prática
e exercício duro, solitário, feroz, radical, da arte, à homossexualidade, coisa
muito vista cá no burgo, é uma falácia, como outras. Ser homossexual não é passaporte
para ser poeta, ou cineasta, ou pintor, como evidentemente também não é
impeditivo, nem barreira.
Hoje, quando passam 20 anos ( o
tempo corre veloz) , da morte do Alberto e do Al Berto, SINES vive-o como o seu
máximo e justo herói. AL BERTO é património e identidade de SINES, tal como
o Festival Músicas do Mundo recentemente distinguido - a 19 de Setembro- pela Plataforma Europeia de Festivais , entre
os 715 festivais de todas as áreas artísticas, um dos seis vencedores desse
prémio europeu.
Ou a excomunhão farisaica de que nos
fala Vicente Alves do Ó, de uma vila a expulsar um dos seus habitantes, não tem
uma ligação assim tão direta ao real vivido pela comunidade, ou a mentalidade
da comunidade mudou totalmente, e o pecador é agora o santo eleito.
Inocente também não é colocar o
partido comunista português como o agente principal da repressão à liberdade de
costumes do poeta. É uma visão, a do realizador, e terá sempre o mérito de
trazer à discussão o cinema português e o poeta Al Berto.
No filme temos alguns rasgos do
imaginário e do real, e em várias sequências estivemos perto de um tratamento
com maior profundidade da complexidade do pulsar da realidade social nesse
tempo retratado, mas quase sempre, a inquietude e o sonho do mundo, fica reduzida
a um registo pop gay.
O poeta AL BERTO resiste, foge, como
sempre fez, arde no caminho solitário como cometa, resiste consciente da sua
efemeridade, foge da tela para a obra, a palavra escrita, onde permanecerá
maior e voz singular.

