terça-feira, 1 de agosto de 2017

21º AVANCA FILM FESTIVAL


FESTIVAL DE CINEMA QUE HABITA A MOBILIDADE DAS FRONTEIRAS

Não é só com romarias e festivais de música popular que se povoam as agendas do verão, e nem todos os festivais de cinema com interesse são classe A.  Há outros encontros cinematográficos que também marcam a agenda, e o AVANCA é seguramente um desses acontecimentos com particularidades que merecem distinção.
           O AVANCA, encontro internacional de cinema, acontece numa aldeia que nestes dias de festival se torna capital, do cinema. A população residente é próxima das 6 000 pessoas, dados de 2011, e é uma das freguesias do concelho de Estarreja,  no eixo Aveiro-Porto-Coimbra.
          A aldeia conheceu no séc. XX a indústria dos laticínios, em particular a produção de manteiga, e o seu natural mais ilustre é o Egas Moniz (1874-1955),  Nobel de Medicina partilhado com Rudolf Hess, neurologista, político e escritor. 
           
            O AVANCA FILM FESTIVAL é organizado pelo Cine-Clube de Avanca e Câmara Municipal de Estarreja, com apoios institucionais com um leque vasto, do Instituto do Cinema e Audiovisual, República Portuguesa Cultura, Fundação para a Ciência e Tecnologia, Academia Portuguesa de Cinema, Turismo Centro de Portugal, Universidade de Coimbra, Universidade de Aveiro à Junta de Freguesia ou paróquia de Avanca. A cruzamento de fronteiras, produção de conhecimento e informalidade, é uma marca deste festival em que a proximidade com os públicos locais também é uma característica distintiva, não deixando por essa razão de trazer a contacto, filmes, cineastas, e investigadores, de lugares geograficamente distantes na Europa, Américas,  Ásia, ou África.


          Festival de cinema no meio do milho em cana verde, na semana que encerra o mês de Julho, de 21 a 30,  faz da aldeia o lugar capital internacional do cinema em território Português.              Confirma a afirmação anterior por exemplo constar o prémio da competição Vídeo atribuído ao filme experimental com 13´48´ “HER”, produzido e realizado por Grace Guo , República Popular da China. Obra que resulta da contaminação entre cinema e dança contemporânea com respiração e movimento das artes marciais e teatro Kabuki, numa aposta estética rigorosa,  em que a máscara assume o centro da produção narrativa. A proposta coloca e responde à pergunta; é possível o humano crescimento com a máscara tornada rosto?  Ou o prémio Estreia Mundial na competição Sénior atribuído à ficção de 14´07’’  “EL INCONVENIENTE” , Argentina -  da realizadora Adriana  Yurcovich produção de  Simone Bosshart ,  filme consistente na construção narrativa e temática, eficaz na realização e mise-en céne, em que o fora de campo e contexto são referentes presentes através de uma montagem eficaz que usa a elipse para a percepção da passagem do tempo e o desenvolvimento do arco dramático da personagem, herói acidental da narrativa, uma mulher próxima dos 80 anos que se vê confrontada com o isolamento num 8º andar quando a cidade está de férias e uma falha geral do fornecimento eléctrico acontece.

            Referencio este filmes por razão de ter estado júri nas competições referidas o que, se por um lado me obrigou a um olhar particularmente atento aos filmes exibidos, me impediu de ver outras projeções, mas, muitos outros filmes, perto de 70, passaram pelos ecrãs do festival em AVANCA e OVAR, e novas projeções da programação vão ter lugar por exemplo em MADRID e no BRASIL.


          A identidade que o diferencia o festival é resultado não só do lugar principal onde acontece, a escola secundaria EGAZ MONIZ, onde as salas se transformam em Oficinas Criativas com diferentes workshops onde a explosão criativa leva a filmes concebidos e produzidos em quatro dias, com equipas a rodar na escola, na aldeia e vilas próximas, ou laboratórios de técnicas de escrita ou de fotografia e de animação, ou dos campos de recreio transformados em parque de campismo improvisado, nem das conferências em que são apresentadas comunicações que chegam dos 4 continentes.  É uma identidade com origem no pensamento conceptual que mantém e antecede o festival.  Esta condição definidora da identidade do Festival fica mais clara nas palavras do diretor e fundador do AVANCA  FILM FESTIVAL, também presidente do Cine Clube de Avanca e professor na universidade de Aveiro,  António Costa Valente:


            “ Cremos que um projetor e um ecrã não fazem um festival. Tão pouco uma passadeira vermelha, caras conhecidas, filmes em exibição, uns prémios, notícias e fotos.
            Cremos que copiar é feio e pouco proveito trará.
            Cremos portanto que os festivais não se podem fazer como se de um carimbo se tratasse. Acreditamos que um festival só vale a pena se tiver carácter, profundidade e for motor para algo novo.
            Acreditamos que vale a pena juntar o gosto e o desejo a um espaço sedutor, onde os mimos e os beijos possam andar no ar.
            Afinal, trata-se de cinema. Trata-se de uma indústria à sombra das ilusões, do espreitar realidades que nos furam os olhos, de pensamentos transformistas, trespassantes, impudicos.
            Se o cinema passa por aqui, então um cinefestival terá de lhes dar o braço e ser capaz de lhes falar em silêncio.
            O AVANCA acredita na voragem inconclusiva das fronteiras e as temáticas passam-lhe ao lado.
            Por isso, todos os filmes podem passar neste festival desde que se goste... mesmo que magros, gordos, brancos, pretos, coxos, cegos, todos... AVANCA é um espaço livre de olhos nos 360º da vida e da vida fílmica.”


            AVANCA é assim um festival de cinema que vive a informalidade e conhecimento, a experimentação e vontade de novo num trabalho de construção de novos públicos, assente na centralidade do cinema no desejo vivo pensar e olhar o mundo que a todo momento se constrói entre o sonho e cimento do real. Um festival onde a ética a par dos fundamentos estéticos da prática cinematográfica tem centralidade.