FESTIVAL DE CINEMA QUE HABITA A MOBILIDADE DAS FRONTEIRAS
Não é só com romarias e festivais de música popular que se
povoam as agendas do verão, e nem todos os festivais de cinema com interesse são classe A. Há outros encontros cinematográficos que
também marcam a agenda, e o AVANCA é seguramente um desses acontecimentos com
particularidades que merecem distinção.
O AVANCA, encontro internacional de cinema, acontece numa aldeia que nestes dias de festival se torna capital, do cinema. A população residente é próxima das 6 000 pessoas, dados de 2011, e é uma das freguesias do concelho de Estarreja, no eixo Aveiro-Porto-Coimbra.
A aldeia conheceu no séc. XX a indústria dos laticínios, em
particular a produção de manteiga, e o seu natural mais ilustre é o Egas Moniz (1874-1955), Nobel
de Medicina partilhado com Rudolf Hess, neurologista, político e escritor.
O
AVANCA FILM FESTIVAL é organizado pelo Cine-Clube de Avanca e Câmara Municipal
de Estarreja, com apoios institucionais com um leque vasto, do Instituto
do Cinema e Audiovisual, República Portuguesa Cultura, Fundação para a Ciência
e Tecnologia, Academia Portuguesa de Cinema, Turismo Centro de Portugal, Universidade
de Coimbra, Universidade de Aveiro à Junta de Freguesia ou paróquia de Avanca. A cruzamento de fronteiras, produção de conhecimento e informalidade, é uma marca deste festival em que a proximidade com os
públicos locais também é uma característica distintiva, não deixando por
essa razão de trazer a contacto, filmes, cineastas, e investigadores, de lugares
geograficamente distantes na Europa, Américas,
Ásia, ou África.
Festival de cinema no meio do milho em cana verde, na semana
que encerra o mês de Julho, de 21 a 30, faz da aldeia o lugar capital internacional do cinema em
território Português. Confirma a afirmação anterior por exemplo constar o prémio da
competição Vídeo atribuído ao filme experimental com 13´48´ “HER”, produzido e
realizado por Grace Guo , República Popular da China. Obra que resulta da contaminação entre cinema e dança contemporânea com respiração e movimento das artes marciais e teatro Kabuki, numa aposta estética rigorosa, em que a máscara assume o centro da produção narrativa. A proposta coloca e responde à pergunta; é possível o humano crescimento com a máscara tornada rosto? Ou o prémio Estreia
Mundial na competição Sénior atribuído à ficção de 14´07’’ “EL INCONVENIENTE” , Argentina - da realizadora Adriana Yurcovich produção de Simone Bosshart , filme consistente na construção narrativa e temática, eficaz na realização e mise-en céne, em que o fora de campo e contexto são referentes presentes através de
uma montagem eficaz que usa a elipse para a percepção da passagem do tempo e o
desenvolvimento do arco dramático da personagem, herói acidental da narrativa, uma mulher próxima dos 80 anos que se vê confrontada com o isolamento num 8º andar quando a cidade está de férias e uma falha geral do fornecimento eléctrico acontece.
Referencio este filmes por razão de
ter estado júri nas competições referidas o que, se por um lado me obrigou a um olhar
particularmente atento aos filmes exibidos, me impediu de ver outras projeções, mas, muitos outros
filmes, perto de 70, passaram pelos ecrãs do festival em AVANCA e OVAR, e novas
projeções da programação vão ter lugar por exemplo em MADRID e no BRASIL.
A identidade
que o diferencia o festival é resultado não só do lugar principal onde acontece, a escola
secundaria EGAZ MONIZ, onde as salas se transformam em Oficinas Criativas com
diferentes workshops onde a explosão criativa leva a filmes concebidos e
produzidos em quatro dias, com equipas a rodar na escola, na aldeia e vilas
próximas, ou laboratórios de técnicas de escrita ou de fotografia e de
animação, ou dos campos de recreio transformados em parque de campismo improvisado, nem das
conferências em que são apresentadas comunicações que chegam dos 4 continentes. É uma identidade com origem no pensamento conceptual que mantém e antecede o festival. Esta
condição definidora da identidade do Festival fica mais clara nas palavras do diretor e fundador do
AVANCA FILM FESTIVAL, também presidente
do Cine Clube de Avanca e professor na universidade de Aveiro, António Costa Valente:
“ Cremos que um projetor e um ecrã
não fazem um festival. Tão pouco uma passadeira vermelha, caras conhecidas,
filmes em exibição, uns prémios, notícias e fotos.
Cremos que copiar é feio e pouco
proveito trará.
Cremos portanto que os festivais não
se podem fazer como se de um carimbo se tratasse. Acreditamos que um festival
só vale a pena se tiver carácter, profundidade e for motor para algo novo.
Acreditamos que vale a pena juntar o
gosto e o desejo a um espaço sedutor, onde os mimos e os beijos possam andar no
ar.
Afinal, trata-se de cinema. Trata-se
de uma indústria à sombra das ilusões, do espreitar realidades que nos furam os
olhos, de pensamentos transformistas, trespassantes, impudicos.
Se o cinema passa por aqui, então um
cinefestival terá de lhes dar o braço e ser capaz de lhes falar em silêncio.
O AVANCA acredita na voragem
inconclusiva das fronteiras e as temáticas passam-lhe ao lado.
Por isso, todos os filmes podem
passar neste festival desde que se goste... mesmo que magros, gordos, brancos, pretos,
coxos, cegos, todos... AVANCA é um espaço livre de olhos nos 360º da vida e da
vida fílmica.”
AVANCA é assim um festival de cinema
que vive a informalidade e conhecimento, a experimentação e vontade de novo num
trabalho de construção de novos públicos, assente na centralidade do cinema no
desejo vivo pensar e olhar o mundo que a todo momento se constrói entre o sonho
e cimento do real. Um festival onde a ética a par dos fundamentos estéticos da
prática cinematográfica tem centralidade.






