sábado, 9 de abril de 2016

Luz de Inverno/ Ingmar Bergman

Tive a oportunidade de ver novamente o filme do Ingmar Bergman "Luz de Inverno", no novo ciclo de obras do cineasta organizado pela Leopardo filmes /Paulo Branco. Fiquei livremente preso ao ecrã numa respiração atenta à sucessão de fotogramas com que Bergman conduz a narrativa deste seu segundo filme da "trilogia do silêncio", rodado em 1962. Bergman não precisa de elogios à sua genialidade enquanto autor cineasta, é uma referencia incontornável do cinema sueco, europeu, mundial. Quero somente reafirmar o prazer de um cinema que trabalha e vive a alma humana, um cinema em que todos os planos são exactos, onde a tensão no interior do plano comunica continuamente com plano que o antecede e com o que os que o sucedem. Um cinema que assume inteiramente a vida humana como a sua única e radical matéria. Em "Luz de Inverno" é a falência da "maquina antropológica" , a orfandade do homem perante a quase evidência do seu desastre na invenção do Deus único e universal, e a radical impossibilidade de viver essa orfandade numa sociedade moderna e simultaneamente arcaica. Porque, como sabemos, não há presente sem passado, e estamos longe de estar afastados desse passado que nos distingue de outras espécies e que se traduz no conhecimento da nosso medo perante a morte e do não sentido para a vida, a menos que seja possível assumir com a tranquilidade possível o facto de " haver metafísica bastante em não haver metafísica nenhuma", como escreveu o enorme poeta. É de uma beleza radical e, de radical sofrimento, este enorme filme com as superlativas interpretações de Gunnar Bjornstrand e Ingrid Thulin e fotografia de Sven Nykvist. Um sacerdote que questiona o seu ofício numa leitura próxima de David Hume, uma mulher que ama e quer amar de forma total e dessa forma sofrer/viver a impossibilidade desse amor, um homem de família suicida por incapacidade de viver sem a certeza de Deus e com o temor do desconhecido ( no caso o perigo que pode chegar do oriente) , um sacristão corcunda que filosofa sofre a natureza do sofrimento de Cristo, dão corpo a esta narrativa centrada na vida de uma igreja de aldeia, ou melhor, dão corpo à falência, à orfandade humana, na leitura cruel e sóbria da Suécia protestante da segunda metade do séc. XX. Obrigado aos organizadores do ciclo.