Duas características da identidade do digital são a sua característica rizomática, plástica, bem como a velocidade, não só do que chega, é, ou vai permanecendo, mas do que se transforma. Vem isto a propósito da materialidade do ecrã, ou dos ecrãs visto que hoje, como já foi afirmado por Gilles Lipovetsky e Jean Serrooy, vivemos a proliferação dos ecrãs, ou a sociedade do ecrã global e, se assim é, foi o digital que o permitiu. Paradoxalmente, a esta proliferação de ecrãs, não corresponde ou não equivale a uma proliferação criativa, mas à redução do universo criativo, pela repetição do mesmo modelo nos diferentes ecrãs, ainda que com as necessárias adaptações a cada ecrã especifico, formato, tamanho de letra ou imagem, duração temporal, etc. Ou seja, adaptações de forma do mesmo modelo de conteúdo aos vários formatos de ecrã em constante proliferação.
A materialidade assume nos ecrãs contemporâneos a sua condição eléctrica, rizomática, a super velocidade, e não já a matéria densa, o peso dos matérias, terra, madeira, ferro, água ou fogo. Tudo é agora sempre a representação da própria matéria, pelo que, com propriedade, é o simbólico a verdade material que ocupa e se revela no mundo dos ecrãs, que é o mundo em que vivemos. Ainda que a matéria permanece no movimento continuo do corpo dos electrões, no vai e vem constante das descargas eléctricas. É uma materialidade construída das relações da inter materialidade.
Esta nova condição visivel da matéria, aponta para uma vasta área de pesquisa possível em que a tradicional dicotomia natureza - artificialidade e também espirito - matéria vão encontrar novas formulações e, arrisco afirmar, ainda que no momento de forma intuitiva, a anulação dessa velha dicotomia, abrindo espaço a um novo momento do pensamento Ocidental a que chamo O Pós-Renascimento. Mas este é um assunto em work progress e não é o agora o momento para muito mais do que esta breve sua enunciação.
O tema deste Ecrã Digital como Casa dos Espelhos da Hiper Realidade é a construção e fragmentação do real, modelo de abordagem construtivista nas ciências sociais e humanas, que nos fala sobre a nossa percepção do real enquanto construção, em grande parte mediada, e que, no que se refere à construção do espaço da opinião pública, e também da construção cultural, essa mediação é em grande parte feita pelos conteúdos que invadem todos os ecrãs que nos envolvem.
A questão que importa reflectir - mais do que obter respostas com pretensões totalizantes -, é sobre o qual o papel da produção de conteúdos, e do cinema em particular, nesta segunda década do séc. XXI, num mundo de elevada complexidade, com fluxos constantes e em quantidades não quantificáveis de informação, entre pessoas e organizações, de todas e em todas as geografias do globo.
A internet está a mudar configurações sociais e políticas no mundo.“A Internet não é um instrumento de liberdade, nem é uma arma para exercer o domínio unilateral. A experiência da Singapura é um bom exemplo. Dirigida por um Governo forte e capaz, Singapura abraçou plenamente a modernização tecnológica como instrumento de desenvolvimento. Simultaneamente, está considerada como um dos sistema autoritários mais sofisticados da História. Para tentar conciliar modernização e autoritarismo, o Governo de Singapura generalizou o usa da Internet entre as seus cidadãos, mantendo ao mesma tempo o controlo político sobre a sua utilização, exercendo censura sobre os fornecedores de serviços Internet. Não obstante, a investigação de Ho e Zaheer (2000) demonstra como, mesmo em Singapura, a sociedade civil foi capaz de utilizar a Internet para ampliar o seu espaço de liberdade, articular a defesa dos direitos humanos e propor pontos de vista alternativos no debate político. “ 1
A importância do cinema independente é, a possibilidade de este existir liberto dos “modos operandi”, regulados e institucionalizados, de poder produzir narrativas ou experiências de comunicação cinematográfica sobre todos os aspectos da realidade social e humana, e não apenas a repetição com novas roupagens dos modelos testados, conhecidos, e capazes de gerar lucro.
Se fizermos o enfoque no suporte, no media, temos claramente uma nova possibilidade de distribuição que se pode caracterizar pela interactividade, rapidez, hiper-texto, multimédia. Uma maior facilidade de segmentação de públicos, a possibilidade de alojamentos diferenciados, redes sociais, youtube, sites dos órgãos de comunicação, blogger esfera, ecrãs moveis. O que implica, necessariamente, um conjunto de novas técnicas para a produção, ao nível da construção das narrativas.
Se fizermos o enfoque no suporte, no media, temos claramente uma nova possibilidade de distribuição que se pode caracterizar pela interactividade, rapidez, hiper-texto, multimédia. Uma maior facilidade de segmentação de públicos, a possibilidade de alojamentos diferenciados, redes sociais, youtube, sites dos órgãos de comunicação, blogger esfera, ecrãs moveis. O que implica, necessariamente, um conjunto de novas técnicas para a produção, ao nível da construção das narrativas.
É a proliferação de ecrãs uma mudança de paradigma? Não necessariamente. Bastará um olhar empírico sobre a produção mainstream nos Novos e Velhos Media, para afirmar que estes são instrumentos centrais para a afirmação e manutenção dos discursos do Poder. E bastará também percorrer as centenas de canais disponíveis e ao alcance de clik no botão do comando, para verificar a dificuldade de encontrar novos conteúdos, ou seja, encontrar mais do que a repetição do mesmo modelo.
Sabemos hoje, à uma linha de investigação na sociologia do conhecimento que o afirma, que os média são a mais eficaz máquina para a produção massificada do bio-político, homens e mulheres da nossa contemporâneadade cujas percepções e construções do real, são por eles mesmos objecto de auto-censuras regulatórias, tornando-se sujeitos auto-submetidos aos discursos dominantes.
A multiplicidade de écrans é mais uma casa, onde se reflectem e encontram e multiplicam, os milhões de espelhos da hiper-realidade, mas em quase todos, apenas é visível simulacros do diferente.
Ainda assim, a nossa casa comum, cheia de fragmentos, desarrumada, civilizada, normativa, indisciplinada, racional e selvagem, com espelhos inteiros e partidos, desde os das casas dos espelhos das feiras populares aos espelhos do palácio de Versailles que podem até, por vezes, reflectir lustres construídos de tampões, está mais rica, e cabe ao autor, a sempre difícil tarefa da construção da obra.
Ainda assim, a nossa casa comum, cheia de fragmentos, desarrumada, civilizada, normativa, indisciplinada, racional e selvagem, com espelhos inteiros e partidos, desde os das casas dos espelhos das feiras populares aos espelhos do palácio de Versailles que podem até, por vezes, reflectir lustres construídos de tampões, está mais rica, e cabe ao autor, a sempre difícil tarefa da construção da obra.
Bibliografia
- Castells, Manuel; THE INTERNET GALAXY REFLECTIONS ON THE INTERNET. BUSINESS AND SOCIETY, pág. 197, Oxford University Press © 2001